Atualizado 3× ao dia · Apostas proibidas pela MP 1.394: veja os prazos
Regulação

Relatório da Fazenda obtido via LAI revela R$ 914 mi em repasses e 15 mi de apostadores no 1º tri de 2026

Documento elaborado pela SPA-MF e mantido fora do domínio público por 84 dias detalha arrecadação, perfil de apostadores e estruturas de proteção desmontadas pela MP 1.394/2026.

Relatório da Fazenda obtido via LAI revela R$ 914 mi em repasses e 15 mi de apostadores no 1º tri de 2026

Imagem ilustrativa gerada por IA

Um balanço oficial da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF) sobre o mercado regulado de apostas de quota fixa no primeiro trimestre de 2026 — de 1º de janeiro a 31 de março — permaneceu guardado por 84 dias sem divulgação espontânea pelo governo. O documento só veio a público como anexo da resposta a um pedido registrado em 27 de junho de 2026 sob o protocolo 18800.116741/2026-07, respondido em 30 de julho. O nome do arquivo entregue indica que a versão estava concluída em 7 de maio. A SPA-MF não explicou publicamente o motivo da não divulgação, afirmando apenas que a base de dados do SIGAP "encontra-se em processo de verificação das informações nela constantes".

O "Panorama Periódico do mercado regulado de Apostas de Quota Fixa" registra R$ 7,6 bilhões em GGR (receita bruta de jogo) no trimestre e R$ 914.137.288,80 em destinações legais — os 12% previstos pela Lei 14.790/2023. Projetado para o ano inteiro, o ritmo indicaria cerca de R$ 3,6 bilhões anuais apenas nessas destinações, sem considerar impostos, outorgas e taxa de fiscalização. O GGR consolidado do primeiro semestre, também obtido via Lei de Acesso à Informação pelo BNLData, chegou a R$ 20,07 bilhões, com repasses estimados em aproximadamente R$ 2,4 bilhões no período. A distribuição dos recursos, porém, expõe uma disparidade: a Saúde — área invocada pelo governo para justificar a proibição das bets — recebeu R$ 9,1 milhões no trimestre, equivalente a 1% do total. O Esporte ficou com 36 vezes mais e o Turismo, com 28 vezes mais. O percentual destinado à Saúde é o fixado em lei e nunca foi alterado pela gestão federal.

O relatório também registra 15.186.243 CPFs únicos que realizaram apostas no trimestre, com 97,9 milhões de contas ativas em operadores e 113,3 milhões em marcas. Os homens representam 68,01% do público e as mulheres, 31,99%. A faixa etária de 31 a 40 anos concentra 28,85% dos apostadores, e 44,36% apostam em um único operador. O documento ainda detalha a estrutura de proteção ao apostador e de integridade esportiva que o governo havia montado no âmbito da regulamentação: um Grupo de Trabalho de Prevenção e Redução de Danos do Jogo Problemático — reunindo os ministérios da Fazenda, da Saúde e do Esporte e a Secretaria de Comunicação Social —, com plano de ação que previa plataforma centralizada de autoexclusão, autoteste de saúde, protocolo de atendimento, capacitação da Rede de Atenção Psicossocial e campanha voltada a atletas. Um segundo GT tratava do combate à manipulação de resultados esportivos, com previsão de encontro nacional para capacitação policial, criação de uma política nacional sobre o tema e lançamento do aplicativo Apita Cidadão para denúncias. A SPA-MF havia firmado ainda dez acordos de cooperação com 13 entidades públicas e privadas.

Com a edição da Medida Provisória nº 1.394, em 25 de setembro de 2026, que proibiu as apostas de quota fixa no Brasil, essa estrutura perdeu a razão de ser. Novos depósitos estão vedados desde a data de publicação da MP; os sites das operadoras devem sair do ar em 5 de outubro; os saldos serão devolvidos aos apostadores pelos bancos até cerca de 14 de outubro; e todas as autorizações concedidas pela SPA serão extintas em 25 de outubro, sem devolução de outorga. A medida vale por 60 dias, prorrogáveis por mais 60, e depende de aprovação do Congresso Nacional para se tornar definitiva. O próprio documento da SPA-MF apresenta inconsistências: o GGR aparece com dois valores diferentes na mesma página (R$ 7.605.687.020,41 no gráfico e R$ 7.605.587.020,41 no destaque), o quadro de URLs bloqueadas vai apenas até outubro de 2025, e as páginas ainda trazem a marcação "Confidential – Not for Public Consumption or Distribution".

O especialista Amilton Noble, que analisou o documento, questiona a coerência do argumento oficial. "Do total arrecadado no trimestre, apenas R$ 9 milhões foram destinados à Saúde, enquanto o Ministério do Esporte levou R$ 329 milhões e o do Turismo, R$ 255 milhões. Alguém realmente continua acreditando que havia preocupação com a saúde no governo?", afirma. Noble também estranha a participação da Secretaria de Comunicação Social no GT técnico de jogo responsável. Sobre o conjunto da regulamentação, ele avalia: "Não é à toa que eu disse que a regulamentação brasileira era sempre reconhecida como uma das melhores do mundo, isso dito em vários congressos por reguladores internacionais. Tudo isso jogado no lixo. Por ironia, a última página do documento traz o slogan do governo: União e Reconstrução. Deveria mudar para Desunião e Desconstrução". O especialista também menciona consequências mais amplas da proibição: "dezenas de milhares de demissões, desestruturação do ecossistema do esporte e comprometimento do financiamento da segurança pública, que teve a destinação de 1% adicional e chegaria a 3% até o final de 2028".

Análise BetNotícias
Destinação de repasses legais no 1º trimestre de 2026 (Lei 14.790/2023)
Órgão/SetorValor (R$)% do total
Esporte329.000.00036%
Turismo255.000.00028%
Segurança Públicanão informado1% (adicional previsto)
Saúde9.100.0001%
Total de repasses914.137.288,8012% do GGR

O que isso muda na regulação

  • O governo possui desde maio de 2026 comprovação oficial de que a estrutura regulatória funcionava: R$ 914 milhões em repasses trimestrais, 15,1 milhões de apostadores identificados e programas de proteção, mas omitiu esses dados antes de aprovar a MP 1.394 que proibiu as apostas.
  • A destinação de apenas R$ 9,1 milhões (1%) à Saúde contradiz o argumento público de proteção ao apostador usado para justificar a proibição, enquanto Esporte e Turismo receberam R$ 329 e R$ 255 milhões respectivamente no mesmo período.
  • Com a proibição, desaparecem mecanismos regulados de proteção (Plataforma Centralizada de Autoexclusão, monitoramento de manipulação de resultados, protocolo de atendimento psicossocial) e o mercado ilegal, sem esses instrumentos, absorverá o público que deveria ser protegido.

Entenda os termos

GGR (Gross Gaming Revenue)
Receita bruta de jogo, calculada como o total de apostas menos os prêmios pagos aos apostadores; base para cálculo dos 12% destinados legalmente.
Autoexclusão
Ferramenta que permite ao apostador bloquear voluntariamente sua própria conta no mercado regulado, impedindo novas apostas por prazo determinado.
SIGAP
Sistema de informação da SPA que centraliza os dados do mercado regulado de apostas de quota fixa e estava em verificação conforme resposta oficial.
Lei de Acesso à Informação
Legislação federal (Lei 12.527/2011) que permite cidadãos requisitar dados públicos aos órgãos governamentais, mecanismo pelo qual o relatório foi obtido.
Fonte original
Com informações de BNLData →

A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.

18+ Conteúdo informativo. Desde 25/09/2026, as apostas de quota fixa estão proibidas no Brasil (MP 1.394). O BetNotícias não opera nem indica apostas. Se o jogo trouxe prejuízo, procure o CAPS mais próximo ou ligue 188 (CVV).