Multicontas: de "esperteza" tolerada a principal vetor de fraude no iGaming brasileiro
A prática de manter múltiplos cadastros em plataformas de apostas evoluiu de abuso de bônus para esquemas sofisticados de fraude, com mercado paralelo de contas verificadas e impacto direto nos custos dos operadores.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Durante anos, abrir mais de uma conta na mesma casa de apostas para resgatar bônus de boas-vindas repetidamente era encarado como um comportamento de baixo risco, quase uma brecha tolerada pelo mercado. Hoje, essa prática — conhecida como multicontas — é classificada como um dos principais vetores de fraude no iGaming brasileiro. A mudança de percepção acompanha a maturidade do setor e, sobretudo, a regulamentação que entrou em vigor em 2025.
O que é e como funciona o multicontas
Multicontas consiste em manter mais de um cadastro ativo na mesma plataforma, seja em nome do próprio usuário ou de identidades diferentes por ele controladas, com o objetivo de obter vantagens que a casa de apostas não permitiria a um único cliente. As motivações vão desde a simples repetição de bônus de cadastro até a fuga de limites de aposta impostos após histórico de vitórias. Nos esquemas mais elaborados, aparecem práticas como o cross betting — em que contas distintas apostam em resultados opostos do mesmo evento para garantir lucro independentemente do desfecho — e o conluio entre jogadores para manipular partidas coletivas.
O mercado paralelo de contas verificadas
O que elevou o multicontas a problema estrutural foi o surgimento de um mercado secundário de contas já validadas. Nesse modelo, uma pessoa — chamada de "drop" ou "laranja" — é remunerada para se cadastrar com seus próprios documentos, passar pelo processo de verificação de identidade (KYC) e até pelo reconhecimento facial. Após a validação, a conta é revendida por valor mais alto a apostadores que já foram banidos ou tiveram restrições aplicadas em outras plataformas. O mecanismo inverte a lógica do KYC: a checagem é feita corretamente pelo titular real dos documentos, mas o controle da conta muda de mãos logo em seguida, sem que o operador tenha como detectar a transferência.
Custos para os operadores e resposta regulatória
Para as plataformas, o impacto é duplo. Apostas coordenadas a partir de múltiplos cadastros distorcem as odds ao simular um comportamento de mercado orgânico que, na prática, representa uma única estratégia centralizada. Além disso, bônus de boas-vindas — concebidos para atrair novos clientes — acabam sendo pagos repetidamente à mesma pessoa ou grupo, inflando artificialmente o custo de aquisição de usuários. A regulação brasileira já prevê mecanismos de resposta: a Portaria SPA/MF nº 1.231/2024, em seu artigo 55, estabelece que, comprovada a fraude, o operador pode reter o valor depositado pelo apostador até o limite dos danos causados. Já a Portaria SPA/MF nº 722/2024 detalha exigências técnicas específicas, determinando que os sistemas detectem e bloqueiem o uso de VPN, proxy, software de acesso remoto, emuladores e qualquer tentativa de mascarar a localização ou a identidade do dispositivo antes da conclusão da aposta.
O desafio da detecção
Segundo especialistas em prevenção a fraudes do setor, identificar um caso isolado de multicontas é menos complexo do que rastrear padrões que surgem em conjunto: mesmo dispositivo, mesma rede, comportamento de apostas correlacionado entre contas que deveriam ser independentes. Quando esses sinais convergem simultaneamente, a suspeita deixa de ser um indício pontual e passa a constituir um caso a ser formalmente investigado pelo operador. Com a regulação brasileira em vigor e a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda exigindo estruturas robustas de compliance, o combate ao multicontas deixou de ser opcional para se tornar obrigação operacional.
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