MP das bets: dados contam sites ilegais, mas destino dos apostadores ainda é desconhecido
Onze dias após as plataformas autorizadas saírem do ar, governo e setor mapeiam milhares de endereços clandestinos — mas nenhuma fonte mede quantos apostadores migraram para os ".com" e quantos simplesmente pararam.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Três fontes distintas tentam dimensionar o mercado clandestino de apostas no Brasil após a entrada em vigor da Medida Provisória nº 1.394, que proibiu as apostas de quota fixa no país a partir de 25 de setembro de 2026. O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) contabilizava, até 15 de outubro, 16.627 sites encaminhados para bloqueio — somados a perfis, páginas e grupos em redes sociais, o total chegava a 20.318, um crescimento de 21% em apenas oito dias. Somente os grupos no Telegram listados no balanço reuniam mais de 18,4 milhões de usuários. Um dia depois, em 16 de outubro, a CNN Brasil citou novo balanço com 24.783 endereços retirados do ar, atingindo 19,5 milhões de usuários, sem que ficasse claro se a diferença representa atualização dos dados ou mudança de critério.
A Legitbet, plataforma de monitoramento mantida pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), registrava 30.844 sites ilegais ainda acessíveis ao fim do feriado de 9 a 12 de outubro. A média diária de links suspeitos detectados saltou de 77, no período anterior à MP, para 549 na primeira semana de outubro — cerca de sete vezes mais, com pico de 948 em 7 de outubro. Já a CNN Brasil identificou ao menos quatro plataformas com domínio internacional operando abertamente para o público brasileiro, algumas delas divulgadas por influenciadores. Entre elas, o caso mais visível é o do site stake.com, que seguia disponível em português, aceitava cadastro com documentos brasileiros e oferecia apostas no Campeonato Brasileiro — o depósito em reais não funcionou, mas transações em criptomoeda foram realizadas com sucesso, modalidade que era vedada no mercado regulado. A liminar que autorizava a empresa a operar até 25 de outubro foi derrubada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) em 9 de outubro.
O problema central de todos esses levantamentos é que eles medem a oferta — endereços, links e canais disponíveis —, e não a demanda. Nenhum deles responde à pergunta mais relevante: quantos dos apostadores que usavam plataformas autorizadas migraram para operadores internacionais? O único dado de tráfego disponível vem da empresa de inteligência de mercado Blask. Em 1º de outubro, o alcance dos sites ".bet.br" estava 74% abaixo do nível normal, e as buscas por marcas reguladas haviam caído 83%. No mesmo período, o tráfego dos sites não licenciados cresceu no máximo 11% na primeira semana, e a participação dos operadores offshore nas buscas por apostas no país passou de 4% para 16%. A própria Blask conclui que a maioria dos apostadores regulados simplesmente parou de apostar, ao menos temporariamente. A empresa, porém, não divulgou sua metodologia, e o dado se refere a 1º de outubro, data anterior à saída definitiva dos sites autorizados, ocorrida em 6 de outubro.
O contexto pré-MP também ajuda a calibrar as análises. Antes da proibição, o mercado ilegal já respondia por 38% a 44% das apostas online no primeiro semestre de 2026, segundo estudo da LCA Consultores com dados do Instituto Locomotiva, encomendado pelo Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR). A Blask aponta ainda que 57% dos apostadores brasileiros haviam visitado alguma plataforma não licenciada nos 90 dias anteriores à proibição — o que indica que boa parte do público dos sites internacionais não é novidade: já estava lá antes da MP. A LCA projeta que as apostas ilegais movimentem entre R$ 26 bilhões e R$ 30 bilhões ao longo de 2026. Como ponto de comparação, o mercado indiano foi citado pela Blask: após a proibição dos jogos online a dinheiro na Índia, em agosto de 2025, as plataformas domésticas perderam 73% do alcance em três meses, e 63% dos usuários seguiram ativos, majoritariamente em operadores estrangeiros. Trata-se de uma referência histórica, não de uma previsão para o caso brasileiro.
Há ainda ressalvas metodológicas importantes nas próprias fontes. A ANJL, mantenedora da Legitbet, adverte que classificar um site como suspeito não equivale a declará-lo ilegal, e que os dados não permitem afirmar que houve migração de apostadores do mercado regulado para o clandestino. A associação também contesta a MP no Supremo Tribunal Federal (STF), o que coloca sua plataforma de monitoramento em posição de parte interessada. O analista Elijonas Maia, citado pela CNN, estima que cerca de 10 mil endereços foram derrubados entre 6 e 16 de outubro, mas ele próprio pondera que um único operador pode manter vários domínios para contornar os bloqueios, o que distorce qualquer contagem por endereços. O único indicador financeiro de demanda disponível é anterior à MP: antes da proibição, os apostadores movimentavam cerca de R$ 600 milhões por dia nas plataformas autorizadas. Não há número equivalente para os sites clandestinos.
| Fonte | Data do levantamento | Sites/domínios | Canais/perfis/grupos | Total contabilizado |
|---|---|---|---|---|
| Ministério da Justiça | 2 de outubro | 10.435 | 3.040 | 13.475 |
| Ministério da Justiça | 7 de outubro | 13.241 | não informado | 13.241 |
| Ministério da Justiça | 15 de outubro | 16.627 | 3.691 | 20.318 |
| Legitbet (ANJL) | 23 de outubro | 30.844 | não informado | 30.844 |
| CNN Brasil | 16 de outubro | não informado | não informado | 24.783 (total removido) |
O que isso diz sobre o mercado
- Três órgãos e plataformas de monitoramento medem oferta clandestina (entre 16,6 mil e 30,8 mil domínios), mas nenhum quantifica para onde foram os apostadores após a MP: indicadores de tráfego sugerem que a maioria parou de apostar, não migrou para os '.com'.
- O único dado de tráfego disponível (Blask, 1º/10) aponta queda de 74% no acesso aos sites '.bet.br' autorizados e aumento de apenas 11% no tráfego ilegal na primeira semana, sugerindo retenção temporária de apostadores, não transferência em massa.
- Antes da MP, o mercado ilegal já representava 38% a 44% das apostas online no Brasil; com a proibição das autorizadas, a LCA projeta movimentação de R$ 26 bilhões a R$ 30 bilhões em apostas ilegais em 2026, mas sem confirmação de fluxo real de usuários.
Entenda os termos
- MP (Medida Provisória)
- Ato normativo com força de lei editado pelo Poder Executivo para tratar de caso de relevância e urgência, com validade limitada e dependência de aprovação do Congresso.
- ANJL
- Associação Nacional de Jogos Lícitos; entidade que mantém a plataforma Legitbet de monitoramento do mercado ilegal.
- Domínio offshore
- Endereço de site com extensão internacional (como .com, .io) operado por empresa sediada fora do Brasil, sem autorização regulatória brasileira.
- GGR (Gross Gaming Revenue)
- Receita bruta de jogo, calculada como total de apostas menos prêmios pagos aos apostadores; indicador de tamanho e movimentação financeira do mercado.
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



