HC da Unicamp abre atendimento específico para dependência de apostas no ambulatório de psiquiatria
O Hospital de Clínicas da Unicamp passou a receber, sem agendamento prévio, pacientes com transtorno do jogo às quartas-feiras no Ambulatório de Substâncias Psicoativas.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criou um espaço de acolhimento dedicado a pessoas com transtorno do jogo dentro do Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa), vinculado ao setor de Psiquiatria da instituição. O serviço funciona às quartas-feiras, das 8h às 11h30, e não exige agendamento prévio. A iniciativa surgiu após um aumento na demanda de casos relacionados a apostas entre os pacientes já atendidos pela unidade.
A psiquiatra Renata Azevedo, responsável pelo Aspa, explicou que o ambulatório originalmente voltado a substâncias como álcool, tabaco e drogas ilícitas passou a receber um novo perfil de paciente. "Pelo fato do ambulatório ser porta aberta, começaram também a aparecer casos novos de pessoas só com dependências comportamentais, nas quais se enquadram os jogos e apostas eletrônicas. Vimos que havia a necessidade de se criar um atendimento específico para esse grupo de pessoas", afirmou a médica. O psicólogo Maurício Sant'ana, do programa de treinamento em serviço do Aspa, destacou que o sentimento de vergonha e a negação são obstáculos comuns antes de o paciente admitir a dependência. "O hábito de jogar é potente. Ele vem, muitas vezes, associado a quadros de ansiedade, depressão e solidão. O jogo promove uma falsa ideia de companhia e de participação", disse Sant'ana.
O psiquiatra Felipe Santaella ressaltou que São Paulo figura entre os estados com maior número de pessoas que apostam e enfrentam dificuldades financeiras. Segundo ele, é comum que os pacientes tentem recuperar o dinheiro perdido fazendo novas apostas, perpetuando um ciclo de repetição. "Tem paciente que está devendo para o banco, para o agiota e para a família. Isso é o motivo de muito sofrimento. Eles percebem que têm alguma coisa errada e buscam por auxílio no Aspa", relatou Santaella. O protocolo de atendimento para adultos inclui triagem, avaliação psiquiátrica e acolhimento coletivo, com possibilidade de prescrição de medicamentos para reduzir os sintomas da compulsão. Já para menores de idade, o suporte é realizado de forma individual, levando em conta as particularidades do desenvolvimento de cada paciente.
Em maio, a equipe do Aspa promoveu uma capacitação que reuniu mais de 100 profissionais de saúde de Campinas e estudantes da Unicamp. O treinamento abordou o cenário atual das apostas online, o fluxo de cuidado dentro da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), especificidades no atendimento a adolescentes e discussões de casos clínicos. A ação foi conduzida pelos próprios Azevedo, Sant'ana e Santaella. Em paralelo, o Ministério da Saúde anunciou que o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais voltados ao tratamento do jogo compulsivo, ampliando o alcance do suporte público a quem enfrenta esse tipo de dependência comportamental.
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