Facções criminosas movimentaram R$ 7 bi em bets ilegais em cinco estados, aponta levantamento
PCC e Comando Vermelho teriam usado plataformas clandestinas de apostas para lavar dinheiro desde 2021, recrutando 31 influenciadores digitais como "rostos" das operações.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Um levantamento realizado pela Polícia Civil e pelos Ministérios Públicos de cinco estados brasileiros, a pedido da revista Veja, indica que organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) movimentaram cerca de R$ 7 bilhões (aproximadamente US$ 1,4 bilhão) por meio de plataformas clandestinas de apostas online desde 2021. As investigações abrangem operações nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.
Segundo as autoridades, as facções recrutaram 31 influenciadores digitais de nichos variados — como funk, moda e fitness — para promover casas de apostas controladas por empresas de fachada. O papel dessas celebridades era atrair apostadores ao exibir um estilo de vida luxuoso e prometer ganhos fáceis nas plataformas ilegais. Na prática, os valores perdidos pelos jogadores eram divididos com os influencers, e o dinheiro restante retornava às organizações criminosas por meio de fintechs, laranjas, empresas de fachada e criptomoedas, conforme relataram os investigadores.
Os delegados e promotores envolvidos nas apurações destacaram dois obstáculos centrais para o combate ao esquema. O primeiro é a velocidade com que uma plataforma ilegal encerra suas atividades e outra é aberta em seu lugar. O segundo é a dependência de quebra de sigilo bancário para rastrear os recursos, um processo que consome tempo suficiente para que evidências sejam destruídas. "As quadrilhas mantêm com os influenciadores um elo 100% mercadológico, algo complexo de destrinchar", afirmou Renan Mello, delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Na mesma linha, o promotor Flávio Duarte, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, alertou: "Não adianta apenas tirar o influenciador do circuito, porque certamente vão encontrar outro que faça a mesma coisa. É preciso alcançar o andar de cima."
O cenário exposto pelas investigações ocorre em meio ao processo de regulamentação do mercado de apostas esportivas no Brasil, que passou a exigir licenças operacionais a partir de 2025, sob supervisão da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. A regulação criou um marco legal mais rígido, mas também evidenciou a persistência de operadores clandestinos que buscam escapar do controle estatal. De acordo com o Ministério da Fazenda, somente em 2026 já foram derrubados 243 aplicativos de apostas ilegais, e cerca de 1.000 perfis de influenciadores que promoviam sites não licenciados foram retirados do ar.
A atuação coordenada entre Polícia Civil e Ministérios Públicos em múltiplos estados sinaliza um esforço crescente para alcançar não apenas os elos visíveis do esquema — como os influenciadores —, mas as cúpulas das organizações criminosas que comandam as plataformas ilegais. O caso do influenciador Buzeira, que recebeu liberdade provisória da Justiça Federal após ser suspeito de envolvimento com jogos ilegais, ilustra a complexidade jurídica dessas persecuções.
O que isso muda na regulação
- Organizações criminosas lavaram R$ 7 bilhões através de plataformas ilegais de apostas desde 2021, usando influenciadores digitais como intermediários para atrair apostadores e disfarçar a origem do dinheiro.
- O circuito opera com plasticidade: casas fecham e abrem rapidamente, o dinheiro passa por estruturas complexas (fintechs, contas laranjas, criptomoedas), e remover influenciadores não desestrutura a rede — autoridades apontam necessidade de atingir a liderança das facções.
- Em 2026, o Ministério da Fazenda removeu 243 aplicativos ilegais e 1.000 perfis de influenciadores, mas investigadores indicam que esse modelo de combate por 'sintomas' é insuficiente contra a replicação rápida de plataformas.
Entenda os termos
- Bets ilegais
- Plataformas de apostas online que operam sem licença da SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas), em violação à legislação brasileira de jogos.
- Empresas de fachada
- Empresas criadas apenas para simular operação lícita e servir como aparência legal para atividades criminosas subjacentes.
- Quebra de sigilos bancários
- Decisão judicial que autoriza investigadores a acessar informações confidenciais de contas e movimentações financeiras para fins de investigação criminal.
- Fintechs e laranjas
- Fintechs são empresas de tecnologia financeira; laranjas são pessoas físicas que emprestam seu nome e contas para movimentar dinheiro ilícito de terceiros.
A apuração inicial deste fato é de Focus Gaming News Brasil. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



