Galípolo aponta crédito e cartões, não bets, como causa do endividamento das famílias
Dados apresentados pelo presidente do Banco Central na Febraban Tech 2026 indicam que cartões de crédito e consignado são os principais vetores do endividamento no Brasil, não as apostas esportivas.
Imagem ilustrativa gerada por IA
As declarações do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na abertura da Febraban Tech 2026, realizada na segunda-feira (24), reacendem o debate sobre as reais causas do endividamento das famílias brasileiras — e os números por ele apresentados não sustentam a tese de que as plataformas de apostas esportivas, as chamadas bets, sejam as principais responsáveis pelo problema. Galípolo apontou o maior acesso ao crédito, especialmente via cartões e crédito consignado, como o fator determinante das dificuldades financeiras da população.
Os dados do BC revelam um cenário preocupante no segmento de crédito rotativo: o país tem hoje 96 milhões de usuários de cartão de crédito, dos quais 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo ou em parcelamentos com juros — taxas que podem ultrapassar 15% ao mês. O comprometimento médio da renda familiar com gastos no cartão teria saltado de 38,5% para 54%, segundo os números apresentados pelo dirigente. Para o presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Lemos Jorge, esses dados evidenciam que o setor de apostas não pode ser associado a esse endividamento, uma vez que as bets operam exclusivamente via Pix e não aceitam cartão de crédito como forma de pagamento. "O setor opera com Pix como meio de pagamento, sem utilização de cartão de crédito. E essa é justamente uma das medidas regulatórias de prevenção ao endividamento. Mais uma vez fica comprovado que as Bets não chegam nem perto das causas das dificuldades financeiras das famílias", afirmou Lemos Jorge.
Outro indicador reforça esse argumento: dados do Ministério da Fazenda relativos ao período de lançamento do programa Desenrola apontaram que menos de 3% das pessoas cadastradas em plataformas de jogos tinham restrições associadas a dívidas e aderiram ao programa de renegociação. A vedação ao uso de cartão de crédito nas bets, aliás, é uma exigência regulatória vigente no Brasil desde que o mercado passou a operar sob regras formais. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, incluiu essa restrição entre as medidas de proteção ao consumidor previstas no marco regulatório, justamente para limitar a exposição financeira dos apostadores.
No plano econômico, a formalização do setor também produziu resultados concretos em 2025. Segundo a Receita Federal, a arrecadação tributária das bets atingiu R$ 9 bilhões no ano. Desse total, R$ 4,5 bilhões foram provenientes da alíquota de 12% sobre o Gross Gaming Revenue (GGR) e destinados a áreas como segurança pública, educação, esporte, turismo e saúde. A ANJL, lançada em março de 2023, reúne operadoras licenciadas e tem defendido o modelo regulado como instrumento de geração de empregos, arrecadação e investimentos — atividade que, antes da regulamentação, ocorria à margem de qualquer conjunto de regras formais.
O diagnóstico traçado por Galípolo na Febraban Tech converge, portanto, com o que representantes do setor de apostas vêm argumentando: o endividamento das famílias está estruturalmente ligado ao consumo financiado por linhas de crédito de alto custo, e não ao gasto com jogos. O debate, no entanto, deve seguir em pauta no Congresso e nos órgãos reguladores, que continuam avaliando o impacto social das apostas no país.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Usuários de cartão de crédito no Brasil | 96 milhões |
| Usuários com dívida em rotativo ou parcelamento | 52,8 milhões |
| Taxa de juros do cartão de crédito | mais de 15% ao mês |
| Comprometimento de renda com cartão (antes) | 38,5% |
| Comprometimento de renda com cartão (atual) | 54% |
| Cadastrados em plataformas de jogos com restrição por dívida (Desenrola) | menos de 3% |
| Arrecadação tributária do mercado regulado (2025) | R$ 9 bilhões |
| Arrecadação dos 12% sobre GGR (2025) | R$ 4,5 bilhões |
O que isso muda na regulação
- Dados oficiais do Banco Central deslocam o endividamento das famílias de apostas esportivas para crédito de alto custo (cartões com juros acima de 15% ao mês e consignados), enfraquecendo argumentos de que bets sejam causa principal da inadimplência.
- O setor de apostas regulado não aceita cartão de crédito (opera apenas com Pix), o que a priori desvincula a modalidade do problema diagnosticado pelo BC, ainda que menos de 3% dos cadastrados em plataformas tivessem restrição por dívida quando do programa Desenrola.
Entenda os termos
- GGR (Gross Gaming Revenue)
- Receita bruta de jogos, que é o total de valores apostados menos os prêmios pagos aos ganhadores; base para cálculo de tributos sobre apostas.
- Cartão rotativo
- Modalidade de crédito do cartão em que o cliente adia o pagamento total da fatura com juros elevados, sem necessidade de parcelamento formal.
- Consignado
- Empréstimo com desconto automático na folha de pagamento ou benefício, frequentemente com juros elevados.
- Pix
- Sistema de transferência bancária instantânea usado como meio de pagamento nas plataformas de apostas reguladas no Brasil.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



