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Regulação

Proibir publicidade de apostas legais favorece mercado ilegal, mostra estudo comparativo

Análise de cinco países revela que silenciar operadores licenciados não reduz o jogo — apenas transfere apostadores para plataformas sem fiscalização, sem proteção e sem impostos.

Proibir publicidade de apostas legais favorece mercado ilegal, mostra estudo comparativo

Imagem ilustrativa gerada por IA

Enquanto dezenas de projetos de lei tramitam no Congresso Nacional propondo restringir ou proibir totalmente a publicidade de plataformas de apostas esportivas e jogos online autorizados pelo governo federal, e enquanto a Secretaria de Comunicação Social (SECOM) e o Ministério da Fazenda sinalizam simpatia por esse tipo de limitação, a experiência internacional já acumulou um conjunto expressivo de dados sobre o que ocorre quando um país silencia o mercado regulado. A conclusão, segundo levantamento comparativo da plataforma iGaming Complete assinado pela consultora Tonet Quiogue, sócia da Arden Consult, é quase unânime: o mercado ilegal cresce, e o legal encolhe.

O que dizem Itália, Bélgica, França e Países Baixos

A Itália foi o primeiro país a adotar a proibição total, com o chamado "Decreto Dignità", em 2018. Quase uma década depois, o mercado ilegal online italiano é estimado em € 20 bilhões por ano — valor superior aos € 11,47 bilhões movimentados pelo mercado regulado. Uma investigação parlamentar de 2022 concluiu que o jogo ilegal e entre menores continuou avançando após a medida, e a própria Federação Italiana de Futebol classificou a proibição como "amplamente ineficaz". Na Bélgica, que implementou restrição quase total em julho de 2023, os jogadores em sites ilegais cresceram 6% e os depósitos, 4%, em apenas três meses; o número de operadores ilegais mirando o país aumentou 4,4 vezes no mesmo ano. Já a França, que nunca licenciou cassinos online, contabiliza 5,4 milhões de jogadores em plataformas ilegais — contra 3,5 milhões no mercado regulado —, com perda fiscal estimada em € 1,2 bilhão anuais. Os Países Baixos, que adotaram restrições à publicidade não segmentada e limites de depósito, viram a taxa de canalização de apostadores para o mercado legal recuar a 49% no primeiro semestre de 2025.

O contraponto britânico e o limite da analogia com o tabaco

O único caso citado em sentido contrário é o do Reino Unido, onde a publicidade de apostas permanece permitida sob regras rígidas de conteúdo, horário e segmentação — e cerca de 98% do mercado online opera dentro do sistema licenciado. O estudo também questiona a analogia recorrente com a publicidade de cigarros: no caso do tabaco, todo produto — legal ou contrabandeado — representa o mesmo risco à saúde. No jogo, a plataforma licenciada e a ilegal diferem em dimensões cruciais para o apostador, como verificação de identidade, auditoria independente de resultados, limites de depósito e sistemas de autoexclusão. Uma pesquisa com 22 países da OCDE, conduzida por Saffer e Chaloupka, concluiu que proibições publicitárias só reduzem consumo quando fecham simultaneamente todos os canais disponíveis; restrições parciais tendem apenas a deslocar o orçamento de marketing para os canais que permanecem abertos — no caso das apostas, predominantemente digitais e fora do alcance regulatório nacional.

O paralelo com o Brasil

No Brasil, dados do estudo "Dimensionamento e combate do mercado ilegal de apostas no Brasil", produzido pela LCA Consultores com base em pesquisa do Instituto Locomotiva, já apontam uma fatia ilegal estimada entre 38% e 44% do total, mesmo após a entrada em vigor do arcabouço regulatório em 2025 e as medidas cautelares contra operadores não autorizados. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, é o órgão responsável pela regulação do setor, que exige licenciamento, compliance e recolhimento de tributos dos operadores autorizados. Os projetos em tramitação no Congresso, segundo a análise, replicam a lógica já testada em outros países: retirar do mercado licenciado sua principal ferramenta de atração de apostadores sem oferecer nenhum instrumento equivalente contra plataformas ilegais, que continuam anunciando por redes sociais, grupos fechados e influenciadores fora do alcance da fiscalização. O estudo alerta que o resultado mais provável de uma proibição ampla não seria a redução do jogo em si, mas sim a redução da parcela que o Estado consegue ver, tributar e fiscalizar — com o agravante de que apostadores atualmente protegidos por mecanismos como listas de autoexclusão perderiam essas salvaguardas ao migrar para operadores sem licença.

Análise BetNotícias
Comparativo internacional: impacto de proibições publicitárias em mercados de apostas
País/RegiãoMedidaAnoResultado no mercado legalResultado no mercado ilegal
ItáliaDecreto Dignità — proibição total2018€11,47 bilhões anuais (8 anos após)€20 bilhões anuais (ilegal superior ao legal)
BélgicaProibição quase totalJulho 2023Não informadoCrescimento de 6% em jogadores; 4% em depósitos; 4,4x mais operadores ilegais em 3 meses
FrançaSem cassinos online licenciadosNão informado3,5 milhões de jogadores regulados5,4 milhões em sites ilegais; perda estimada de €1,2 bilhão/ano em impostos
Países BaixosRestrição a publicidade não segmentada; limites de depósitoNão informadoTaxa de canalização de 49% (1º semestre 2025)Não informado
Reino UnidoPublicidade permitida sob regras rígidasNão informado~98% do mercado online licenciado~2% ilegal

O que isso muda na regulação

  • Estudos em cinco países comprovam que proibições totais ou quase totais de publicidade de apostas legais não reduzem o jogo, mas deslocam apostadores para plataformas ilegais — que não são fiscalizáveis nem arrecadam impostos.
  • O Brasil, com projetos de lei em tramitação que apontam para restrições publicitárias semelhantes às das Filipinas, risca replicar um fracasso já documentado: perder o controle regulatório sobre parte do mercado de apostas.
  • Apostadores que migram para operadores ilegais perdem proteções disponíveis no mercado regulado (autoexclusão, verificação de identidade, limites de depósito, jogos auditados), enquanto o Estado perde capacidade de arrecadação e fiscalização.

Entenda os termos

Canalização
Migração e concentração de apostadores de plataformas ilegais para o mercado legal regulado; também chamada de taxa ou percentual de jogadores no mercado licenciado.
Operadores licenciados
Plataformas de apostas autorizadas e fiscalizadas pelo Estado, sujeitas a tributação, compliance e mecanismos de proteção ao consumidor (como limites de depósito e autoexclusão).
Autoexclusão
Mecanismo de proteção que permite ao apostador bloquear voluntariamente sua própria conta por período determinado, impedindo novos acessos e transações na plataforma.
PAGCOR
Philippine Amusement and Gaming Corporation — órgão regulador das apostas e jogos nas Filipinas.
Fonte original
Com informações de BNLData →

A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.

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