Afastamentos por ludopatia crescem, mas representam 0,0013% dos apostadores, apontam dados
Estudo do Ministério do Trabalho registrou 363 casos em 2025, mas a própria autora admite que os dados são insuficientes para estabelecer causalidade com a regulação das bets.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Um levantamento da Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho, apontou que o número de trabalhadores segurados que receberam auxílio por incapacidade temporária do INSS em razão de ludopatia passou de 67, em 2023, para 136, em 2024, e chegou a 363, em 2025 — variação superior a 400% em dois anos. Os dados foram antecipados à Folha de S.Paulo, que os associou à regulamentação das apostas de quota fixa. A análise do BNLData, porém, mostra que esses números precisam ser lidos com cautela.
Cruzando os registros do INSS com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação junto à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), os 363 afastamentos de 2025 correspondem a 0,0013% da base de apostadores daquele ano — que somava 28.128.172 CPFs únicos com cadastro ativo. Em termos práticos, isso representa aproximadamente um caso para cada 77 mil apostadores. Para efeito de comparação, a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% da população adulta mundial apresenta algum transtorno relacionado ao jogo. Aplicada apenas à base de apostadores ativos em 2025, essa taxa resultaria em mais de 337 mil pessoas com o distúrbio no Brasil — e os afastamentos registrados equivalem a cerca de 0,1% desse total estimado.
Além da escala, há ressalvas metodológicas relevantes. O dado previdenciário capta apenas trabalhadores formais segurados que passaram por perícia médica, não servindo como medida de prevalência do transtorno na população. A própria Paula Montagner, subsecretária responsável pelo estudo, reconheceu à Folha que os dados são insuficientes para confirmar que o aumento dos afastamentos foi provocado pelo vício em jogos — e o próprio documento ressalva que os números iniciais "precisam ser tratados com muito cuidado". Outros fatores podem explicar a alta: a ludopatia ganhou visibilidade pública, o SUS criou um serviço de teleatendimento específico, e mais trabalhadores passaram a buscar diagnóstico e tratamento. Um mercado que sai da informalidade também torna seus efeitos mais visíveis nas estatísticas oficiais.
O contexto do financiamento é central no debate. Em 2025, a contribuição sobre o Gross Gaming Revenue (GGR) — que era de 12% naquele ano — gerou R$ 6,64 bilhões em arrecadação efetiva para os beneficiários legais ao longo de 17 meses. Do total repassado, cerca de 10% foram destinados à Seguridade Social, que financia a Previdência e a saúde pública: somente em 2025, esse repasse chegou a R$ 450,9 milhões. O Ministério da Saúde recebeu R$ 44,9 milhões em 2025 e mais R$ 24,19 milhões no primeiro semestre de 2026 — recursos direcionados ao programa Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, que inclui o próprio teleatendimento do SUS citado como avanço no combate à ludopatia.
O mercado de apostas de quota fixa foi regulamentado pela Lei nº 14.790/2023 — que não criou o setor, mas impôs regras a um mercado já existente, autorizado desde a Lei nº 13.756/2018 — e começou a operar sob normas plenas em 1º de janeiro de 2025. Em setembro de 2026, a Medida Provisória nº 1.394 proibiu as apostas esportivas e de cassino online no país, encerrando as autorizações da SPA/MF. Com a proibição, o fluxo de recursos para a Seguridade Social, o Ministério da Saúde e os demais beneficiários legais foi interrompido. Segundo projeção do BNLData, a perda pode chegar a R$ 18 bilhões até o fim das outorgas, em 2029. Apostadores com transtorno do jogo, no entanto, seguem existindo — e, com o mercado regulado fora do ar, as plataformas ilegais, que não verificam idade, não oferecem autoexclusão e não recolhem tributos, passaram a ser a única opção disponível.
| Período | Afastamentos por ludopatia (INSS) | CPFs únicos ativos no mercado regulado | Proporção (afastamentos/apostadores) |
|---|---|---|---|
| 2023 | 67 | não informado | não informado |
| 2024 | 136 | não informado | não informado |
| 2025 | 363 | 28.128.172 | 0,0013% |
| 1º semestre 2026 | não informado | 30.895.934 | não informado |
O que isso muda na regulação
- Um aumento de 400% em afastamentos por ludopatia impressiona, mas ocorreu sobre base de 363 casos em 28,1 milhões de apostadores — apenas 0,0013% — cifra que a própria subsecretária autora reconhece ser insuficiente para estabelecer causalidade com a regulação.
- A regulação gerou R$ 450,9 milhões para o INSS e R$ 69 milhões para o Ministério da Saúde em tratamento de ludopatia entre 2025 e junho de 2026; a proibição pela MP nº 1.394 eliminou essa arrecadação enquanto mantém os casos de transtorno do jogo, agora sem financiamento público e concentrados em plataformas ilegais sem proteções sociais.
- Com o fechamento do mercado regulado, apostadores com transtorno migram para plataformas ilegais — que não verificam idade, não oferecem autoexclusão e não recolhem nada — enquanto o Estado continua pagando perícia, tratamento e benefícios previdenciários sem receita compensatória.
Entenda os termos
- GGR
- Gross Gaming Revenue (receita bruta de jogos); base de cálculo para a contribuição recolhida pelas operadoras de apostas aos beneficiários legais (Seguridade Social, Ministério da Saúde, etc.).
- Ludopatia
- Transtorno do jogo compulsivo; classificado pela OMS como problema de saúde mental que causa incapacidade para o trabalho e danos financeiros e psicossociais.
- Auxílio por incapacidade temporária (INSS)
- Benefício previdenciário concedido ao segurado que fica temporariamente impossibilitado de trabalhar por doença, comprovada por perícia médica do INSS.
- SPA/MF
- Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda; órgão responsável pela regulamentação, licenciamento e fiscalização das apostas de quota fixa no Brasil (até a proibição pela MP nº 1.394/2026).
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



