Proibir bets fortaleceria mercado ilegal, aponta análise sobre debate no governo Lula
Enquanto o presidente defende o veto às casas de apostas esportivas, especialistas e dados internacionais indicam que a medida teria efeito oposto ao desejado, engordando o mercado clandestino.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou nas últimas semanas a defesa pela proibição das casas de apostas esportivas no Brasil — posição que contraria a própria decisão de seu governo de regularizar o setor, em 2023. Segundo análise publicada pela VEJA Negócios, a medida representaria uma falsa solução: ao invés de reduzir os riscos associados às bets, tenderia a fortalecer o mercado clandestino. A lógica é direta — a fiscalização federal já demonstrou dificuldade para bloquear sites ilegais em atividade, e a demanda por apostas não desapareceria com o fim das plataformas autorizadas. Parte dos jogadores simplesmente migraria para operadores que não recolhem impostos, não possuem sede no país, não geram empregos formais e não seguem qualquer regra de proteção ao consumidor.
O peso das apostas nas finanças domésticas costuma ser superdimensionado no debate público. Estudo da consultoria econômica LCA estima que bets legais e ilegais somadas respondem por menos de 0,5% do consumo total das famílias brasileiras. As operadoras autorizadas registraram receita bruta de R$ 37 bilhões em 2025 — valor que a LCA contextualizou comparando com os quase R$ 70 bilhões que as famílias gastam com serviços de streaming e com os cerca de R$ 700 bilhões consumidos pelos juros do rotativo do cartão de crédito. Do ponto de vista fiscal, o setor autorizado recolheu R$ 7,3 bilhões em tributos à União apenas no primeiro semestre de 2026, alta de 83% em relação ao mesmo período do ano anterior, com projeção conservadora de R$ 13 bilhões ao longo do ano.
O Brasil conta com um marco regulatório consolidado desde a Lei 14.790, de dezembro de 2023. A partir de janeiro de 2025, apenas empresas com autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar no país, sob domínio .bet.br, mediante pagamento de outorga de R$ 30 milhões por licença. As autorizadas são obrigadas a identificar apostadores, monitorar transações suspeitas, manter reservas para pagamento de prêmios e estão proibidas de aceitar apostas com cartão de crédito. Ainda assim, o mercado ilegal permanece expressivo: pesquisa da LCA em parceria com o Instituto Locomotiva aponta que, no primeiro semestre de 2026, entre 38% e 44% das apostas online ocorreram em plataformas clandestinas — queda em relação à faixa de 41% a 51% registrada anteriormente, mas ainda acima do patamar observado em outros países. Entre agosto de 2025 e agosto de 2026, dez grandes operações policiais contra apostas ilegais atingiram ao menos 16 estados e o Distrito Federal, identificando estruturas com vínculos a fintechs, empresas de fachada e, em seis casos, ao tráfico de drogas ou a facções como o PCC e o Comando Vermelho.
A experiência internacional reforça o argumento contrário à proibição. Na China, onde quase todas as modalidades de apostas são proibidas e a repressão estatal é ampla, a demanda migrou para sites instalados no exterior — autoridades chinesas estimam uma saída de cerca de 1 trilhão de yuans por ano para o jogo ilegal, o equivalente a aproximadamente 150 bilhões de dólares, valor superior às receitas anuais das loterias oficiais do país. O caminho inverso foi adotado pelo Reino Unido: após estruturar um mercado legal com licenciamento, tributação e fiscalização rigorosos, o país concentrou 97% das apostas online em plataformas autorizadas, segundo estimativa da consultoria H2 Gambling Capital. "Proibir as bets vai empurrar as pessoas para o mercado ilegal", afirmou Bernardo Itri, vice-presidente de marketing da Federação Paulista de Futebol. Para Marco Tulio Oliveira, presidente-executivo da ANA Gaming Brasil, dona do site 7K Bet, "o jogador ficará mais exposto a riscos e o combate às práticas ilegais será mais complexo".
A eventual proibição também atingiria diretamente o futebol brasileiro. Estima-se que as casas de apostas desembolsem R$ 1 bilhão por ano em patrocínios a clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. Em setembro, oito clubes e as federações de São Paulo e do Rio de Janeiro publicaram manifesto contra a medida, afirmando que esses recursos "impulsionaram o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano" em competições como a Libertadores e a Sul-Americana, beneficiando também equipes de menor expressão e divisões de acesso. No plano jurídico, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) estima que uma proibição exporia a União a pedidos de indenização de pelo menos R$ 120 bilhões, considerando outorgas pagas, investimentos realizados e expectativa de faturamento futuro. "Se o Estado restringe ou inviabiliza uma atividade para a qual concedeu autorização, mediante o pagamento de outorga, não pode ignorar as consequências patrimoniais da proibição", declarou Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da ANJL e sócio do escritório Betlaw.
| Métrica | Valor | Período/Ano |
|---|---|---|
| Receita bruta (operadoras autorizadas) | R$ 37 bilhões | 2025 |
| Tributos recolhidos (setor autorizado) | R$ 7,3 bilhões | 1º semestre de 2026 |
| Estimativa de arrecadação total | R$ 13 bilhões | 2026 |
| Compartilhamento de bets no consumo total familiar | Menos de 0,5% | não informado |
| Participação do mercado ilegal nas apostas online | 38-44% | 1º semestre de 2026 |
| Participação do mercado ilegal (medição anterior) | 41-51% | período anterior |
| Patrocínios anuais a clubes da Série A | R$ 1 bilhão | anual |
| Empregos no setor autorizado | Cerca de 15.000 | 2026 |
| Outorga paga por operadora | R$ 30 milhões | por licença |
| Estimativa de indenizações potenciais (caso proibição) | R$ 120 bilhões | não informado |
O que isso muda na regulação
- A proibição das bets legalizadas não reduziria o jogo no país — deslocaria apostadores para plataformas clandestinas, ampliando um mercado que já responde por 38-44% das apostas online e opera sem fiscalização ou proteção ao consumidor.
- O governo recolhe R$ 13 bilhões anuais em tributos e o setor gera 15 mil empregos: uma proibição exporia a União a pedidos de indenização estimados em R$ 120 bilhões (outorgas, investimentos e faturamento futuro) e eliminaria receita de arrecadação.
- O futebol brasileiro perderia R$ 1 bilhão anuais em patrocínios — incluindo clubes de menor expressão no interior do país sem alternativas econômicas imediatas — e experiências internacionais (Reino Unido: 97% das apostas em plataformas legalizadas) mostram que regulação, não proibição, concentra demanda no mercado formal.
Entenda os termos
- Mercado clandestino/ilegal
- Plataformas de apostas que operam sem licença do governo, não pagam impostos e não seguem regulamentações de proteção ao consumidor ou controle financeiro.
- Outorga
- Valor pago pelas operadoras ao governo para obter a licença de funcionamento autorizado no mercado regulado.
- Domínio .bet.br
- Endereço na internet exclusivo para operadoras de apostas esportivas autorizadas no Brasil, que permite identificar plataformas legais.
- Rastreamento financeiro
- Monitoramento das movimentações de dinheiro em transações, usado para identificar e combater operações de apostas ilegais e crime financeiro.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



