Pesquisa do Sebrae sobre bets mede opinião, não prejuízo econômico, diz fact-check
Levantamento divulgado pela entidade foi repercutido como prova de dano ao comércio, mas 74% dos pequenos negócios entrevistados não relataram perda de faturamento atribuída às apostas.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O Sebrae divulgou neste domingo (11) a pesquisa "Percepção dos pequenos negócios sobre o fim das Bets", rapidamente repercutida pelo UOL com a manchete de que 66% dos pequenos empresários apoiam a proibição das apostas de quota fixa. O levantamento ouviu 1.028 MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte no início de outubro de 2026, poucos dias após a edição da Medida Provisória nº 1.394, que suspendeu as apostas esportivas e de cassino online no Brasil. O presidente da entidade, Décio Lima, declarou que os dados "mostram com clareza" a migração de recursos do comércio local para os jogos online — mas o próprio material divulgado contradiz essa conclusão, segundo análise do BNLData.
Quando se examina o que a pesquisa efetivamente mediu, o cenário é bem distinto do retratado pelo dirigente. Apenas 26% dos entrevistados associaram queda de receita às apostas; 51% afirmaram que as bets não tiveram efeito direto sobre o faturamento e 23% não souberam avaliar — ou seja, 74% dos pequenos negócios não relataram prejuízo. No quesito clientes, somente um terço (33%) percebeu consumidores com menos dinheiro no bolso. Quanto às perspectivas com o fim das apostas, apenas 38% esperam vender mais; os outros 62% projetam estabilidade, queda ou simplesmente não têm opinião formada. A nota média atribuída ao impacto esperado na economia local foi de 6,1, em escala de zero a dez. O BNLData destacou ainda que a pesquisa não traz margem de erro, método de coleta, critério de seleção dos entrevistados nem a redação das perguntas — lacunas que impedem avaliar se a amostra representa, de fato, o universo dos pequenos negócios do país.
O contexto em que o levantamento foi publicado também mereceu atenção do fact-checker. Décio Lima retornou à presidência do Sebrae depois de disputar, sem sucesso, uma vaga no Senado pelo PT em Santa Catarina nas eleições de 4 de outubro: terminou em quarto lugar, com 823.200 votos (10,22%). Durante seu afastamento para a campanha, o Conselho Deliberativo elegeu por unanimidade como presidente interino Rodrigo Soares — ex-deputado estadual na Paraíba pelo PT por dois mandatos (2003–2011) e, até então, chefe de gabinete da presidência da entidade. O BNLData ponderou que a filiação partidária dos dirigentes não invalida os dados por si só, mas ajuda a entender o enquadramento: a pesquisa foi divulgada em plena campanha de segundo turno, por uma entidade cujo presidente havia sido derrotado nas urnas havia apenas uma semana, com título que já tratava o "fim das Bets" como fato consumado e conclusão oficial alinhada ao discurso do governo federal.
O próprio estudo registra nuances que ficaram de fora das manchetes. Parte dos empresários ouvidos manifestou preocupação com a migração dos apostadores para plataformas clandestinas e criticou a insegurança jurídica da proibição total, tendo em vista as autorizações já concedidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, no âmbito da regulamentação que entrou em vigor em 2025. Entre as alternativas sugeridas pelos entrevistados estavam regras mais rígidas, limites por CPF e restrições à publicidade — ou seja, regulação mais rigorosa, e não necessariamente proibição. Com base na análise, o BNLData concluiu que apresentar percepções de opinião como demonstração de prejuízo econômico concreto — quando a maioria dos entrevistados disse não ter sido afetada — configura extrapolação dos dados, e atribuiu ao levantamento o "Selo Narrativa" de seu programa de fact-checking.
| Métrica | Resultado da pesquisa | Interpretação |
|---|---|---|
| Pequenos negócios que associam queda de receita às apostas | 26% | 74% NÃO relatam prejuízo |
| Empresários que percebem cliente com menos dinheiro | 33% | 67% não perceberam mudança |
| Que esperam vender mais com o fim das apostas | 38% | 62% projetam estabilidade, queda ou não sabem |
| Nota média esperada para impacto na economia local (0-10) | 6,1 | Avaliação de impacto mediano |
| Tamanho da amostra | 1.028 MEIs, microempresas e pequenas empresas | Sem divulgação de margem de erro ou representatividade nacional |
O que isso diz sobre o mercado
- A pesquisa do Sebrae mede apenas opinião de pequenos negócios sobre bets, não fornece evidência de dano econômico real — 74% dos entrevistados não relataram queda de faturamento atribuível às apostas.
- O levantamento carece de ficha técnica completa (margem de erro, método, redação das perguntas), impedindo verificação de representatividade nacional e validação dos dados.
Entenda os termos
- MEI
- Microempreendedor Individual — categoria de empresa de menor porte, com faturamento limitado e até um funcionário permitido
- Pesquisa de percepção
- Levantamento que coleta opinião ou impressão dos entrevistados, não medidas objetivas de faturamento ou comportamento econômico real
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



