Fazenda anuncia bloqueio automatizado e ressarcimento de vítimas no combate às bets ilegais
Secretaria de Prêmios e Apostas detalhou ações contra operadores clandestinos em audiência na Câmara; pesquisa aponta que mercado ilegal ainda representa entre 38% e 41% do setor no Brasil.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda apresentou um balanço das ações de combate às bets ilegais durante audiência realizada nesta terça-feira (11) na Comissão Externa da Câmara dos Deputados sobre Atos de Pirataria. O subsecretário de Monitoramento e Fiscalização, Carlos Renato Resende, explicou que o trabalho de fiscalização começou de forma manual em janeiro do ano passado e que, desde outubro, o bloqueio de domínios ilegais passou a ser feito de maneira automatizada. Até o momento, mais de 60 mil sites já foram derrubados. "Em nenhum lugar do mundo um mercado ilegal foi extirpado. No Brasil, temos outros mercados sujeitos à pirataria, e a dificuldade é a mesma", afirmou o subsecretário.
Além do bloqueio de plataformas, Resende anunciou medidas para congelar recursos de empresas ilegais e devolver valores a consumidores lesados por fraudes. Segundo ele, quem puder comprovar prejuízo terá a oportunidade de se apresentar e reaver parte do dinheiro bloqueado. Os valores que não forem reclamados ou cujos operadores não conseguirem demonstrar origem lícita serão revertidos ao Fundo Nacional de Segurança Pública. O subsecretário também mencionou que a Lei Antifacção e de Combate ao Crime Organizado trouxe mecanismos adicionais para impedir que bets clandestinas sejam utilizadas na lavagem de dinheiro, e que o Ministério da Fazenda está em contato com o Sistema Financeiro Nacional para editar novas normas sobre o tema — com previsão de divulgação até o início de agosto.
Parte das iniciativas apresentadas decorre de recomendações do Tribunal de Contas da União (TCU), contidas no Acórdão 1296/26, aprovado em maio. O secretário de Controle Externo de Governança do TCU, Wesley Vaz, defendeu a atuação coordenada entre Ministério da Fazenda, Banco Central, Receita Federal, Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e Polícia Federal. "Há necessidade de o Estado bloquear melhor os domínios, interromper os fluxos financeiros e sancionar os operadores ilegais", declarou Vaz. O contexto regulatório remonta à Lei 13.756/18, que autorizou as apostas de quota fixa no país, e à chamada Lei das Bets, editada em 2023, que ampliou os instrumentos de controle estatal sobre o setor.
Pesquisa do Instituto Locomotiva, divulgada durante a audiência e realizada em maio com 2.291 pessoas em todo o Brasil, indicou que as bets ilegais respondem por entre 38% e 41% do mercado nacional. O número representa uma queda em relação ao levantamento anterior, que apontava participação de 41% a 51%. Eric Brasil, diretor da LCA Consultoria, avaliou que a redução equivale, em estimativa simples, a uma queda de 11% do mercado ilegal, mas ponderou que o índice brasileiro ainda é elevado se comparado ao de outros países. A Irlanda registra o menor índice global, com 3%; Austrália e México marcam 15% e 20%, respectivamente. O coordenador da comissão, deputado Julio Lopes (PP-RJ), celebrou o avanço, ainda que modesto: "Em que pese seja uma diminuição ainda pequena, já é algo a ser comemorado."
A audiência também abordou os riscos sociais associados às apostas ilegais. A diretora do Laboratório de Direitos Humanos e Novas Tecnologias (Labsul), Letícia Ferraz, associou o descontrole das plataformas clandestinas a casos de superendividamento, transtornos psiquiátricos e até ameaças à vida dos apostadores. O Labsul informou que lançará uma cartilha educativa voltada à proteção do apostador e do consumidor em geral. Em contraponto, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) listou os mecanismos presentes nas bets regularizadas, como pagamentos rastreáveis, verificação biométrica facial, vedação a menores de 18 anos, recolhimento de tributos e comunicação de operações suspeitas às autoridades competentes.
| Período/Fonte | Participação do mercado ilegal | Variação |
|---|---|---|
| Levantamento anterior (Instituto Locomotiva) | 41% a 51% | não informado |
| Pesquisa de maio de 2024 (Instituto Locomotiva) | 38% a 41% | Redução de ~11% |
| Irlanda (referência internacional) | 3% | não informado |
| Austrália (referência internacional) | 15% | não informado |
| México (referência internacional) | 20% | não informado |
O que isso diz sobre o mercado
- O bloqueio automatizado de sites e o novo mecanismo de ressarcimento criam barreira técnica e financeira para operadores ilegais, mas a participação do mercado ilegal ainda é 9 a 13 vezes maior que em países como Irlanda e Austrália.
- Apostadores que caíram em fraudes de bets ilegais agora terão caminho formal para recuperar recursos bloqueados, desde que comprovem a origem do dinheiro que perderam.
Entenda os termos
- Lei das Bets
- Legislação de 2023 que criou novos instrumentos de controle e regulação das apostas de cota fixa no Brasil, ampliando poderes de fiscalização do Estado.
- Bloqueio automatizado de sites
- Sistema implementado desde outubro de 2023 que, diferentemente do processo manual anterior, bloqueia automaticamente domínios de plataformas de apostas ilegais.
- Fundo Nacional de Segurança Pública
- Fundo estatal para o qual são destinados recursos provenientes de bets ilegais apreendidos, para aplicação em combate à criminalidade em geral.
- Lavagem de dinheiro
- Prática de dissimular a origem ilícita de recursos financeiros; a Lei Antifacção criou mecanismos nas bets legalizadas para prevenir esse crime.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



