Campanha de Lula reduz menções às bets após reação do futebol e erro de cálculo eleitoral
Levantamento da Folha de S.Paulo mostra queda de 11 para 4 citações por vídeo no segundo turno; Janja admitiu, em vídeo, que a proibição das apostas não gerou o impacto eleitoral esperado.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diminuiu de forma expressiva o uso do tema bets em vídeos e peças publicitárias após o primeiro turno das eleições presidenciais. A mudança de postura foi documentada pela Folha de S.Paulo com base na análise de 46 vídeos publicados no canal de Lula no YouTube até o dia 15 de outubro. Os dados mostram que a média de menções ao termo "bets" por vídeo recuou de 11 referências durante o primeiro turno para apenas quatro na reta final da disputa — período em que Lula deixou o assunto completamente de lado em duas ocasiões, incluindo o debate da TV Band exibido em 18 de outubro. Flávio Bolsonaro (PL) concluiu o primeiro turno com vantagem de 2 milhões de votos.
Janja admite erro e expectativa frustrada
A dimensão do equívoco estratégico veio à tona pela própria primeira-dama, Janja da Silva. Em vídeo registrado pelo SBT News e também verificado pela Folha de S.Paulo, ela afirmou, em lágrimas, que esperava uma vitória já no primeiro turno em razão da proibição das plataformas de apostas — e reconheceu que a iniciativa não teve o efeito eleitoral calculado pelo governo. Os dados internos, contudo, sugeriam otimismo: pesquisa da Quaest apontava que 64% dos entrevistados tinham conhecimento do encerramento do mercado regulado de apostas, e somente 8% desse grupo desaprovava a decisão. A conversão desse aprovação em votos, porém, ficou aquém do esperado. A cientista política Carolina de Paula, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), avalia que o movimento é natural no processo eleitoral: "Essas métricas ajudam, assim como a cobertura da imprensa, que também é um parâmetro para a campanha", disse ela. Para a pesquisadora, o recuo não configura fracasso: "O tema vai perdendo forças e se esgota. As pessoas também deixam de procurar nas redes sociais."
Futebol subestimado na equação política
O governo não antecipou a força da reação vinda do universo do futebol. Os clubes se organizaram em torno da campanha "fim do futebol", em defesa das casas de apostas, e a insatisfação logo ecoou nas arquibancadas. No dia 11 de outubro, torcedores do Flamengo entoaram xingamentos contra Lula após vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense em clássico. O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, declarou ao Poder360 em 25 de setembro que "não tinha nada a aprender com Lula" sobre a dependência dos clubes das receitas das bets. No dia em que assinou a medida provisória proibindo as apostas online — 25 de setembro —, Lula recorreu ao histórico dos títulos do futebol brasileiro para justificar a decisão: "Flamengo foi campeão em 81 sem bet. São Paulo foi três vezes campeão sem bet. Grêmio foi campeão sem bet. Corinthians foi campeão sem bet. Depois das bets, quem é que ganhou?" Antes de encerrar, acrescentou: "Não falei do Palmeiras aqui porque ele não ganhou nada." Em 1º de outubro, última vez em que abordou o tema com profundidade, o presidente sugeriu que os clubes aderissem ao modelo empresarial da Lei das SAFs (sociedades anônimas de futebol). Após essa data, o assunto foi escanteado nos discursos oficiais.
Novo foco: escala 6×1 e ofensiva contra Flávio Bolsonaro
Com as bets em segundo plano, a campanha petista redirecionou a narrativa do segundo turno. As palavras mais frequentes nas inserções de rádio passaram a ser "mudança", "escala" e "Flávio". Lula intensificou referências ao pacote de medidas que inclui o fim da escala de trabalho 6 por 1 e um programa de perdão de dívidas para microempreendedores individuais. Quando Flávio Bolsonaro anunciou voto favorável à PEC que reduz a jornada de trabalho — em aparente alinhamento ao desejo da maioria da população, segundo o próprio candidato —, a campanha do PT passou a chamá-lo de "duas caras". A campanha de Flávio, por sua vez, adotou o rótulo de "pai do tigrinho" para o governo Lula, em referência à inclusão dos caça-níqueis online na regulamentação aprovada pelo Congresso no fim de 2023, modalidade incorporada ao texto pelo relator, o senador Angelo Coronel (Republicanos), e posteriormente acatada pela Fazenda, então sob o comando de Fernando Haddad (PT). As menções às bets não desapareceram por completo: em evento com apoiadores em Natal, Lula declarou: "Essa é a passeata daqueles que não querem mais bet roubando o povo pobre desse país." O presidente também reforçou, nos discursos, que as apostas online foram sancionadas pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) no final de 2018, com obrigação de regulamentação nos quatro anos seguintes, e que o governo Bolsonaro não cumpriu a exigência. A proibição das apostas de quota fixa no país vigorou a partir de 25 de outubro, data em que todas as autorizações emitidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) foram extintas nos termos da MP nº 1.394.
Por que isso importa
- O governo subestimou a reação de clubes de futebol, torcedores e apostadores recreativos à proibição das bets — grupos que não constavam do cálculo eleitoral — e recuou publicamente o tema após o primeiro turno, reduzindo menções de 11 para 4 por vídeo.
- A própria primeira-dama admitiu que esperava vitória no primeiro turno em razão da proibição das apostas, revelando que a iniciativa foi calibrada como ganho político, mas não converteu votos conforme planejado.
Entenda os termos
- Medida Provisória
- Ato normativo expedido pelo presidente com força de lei, que vale por 60 dias e deve ser aprovado pelo Congresso para se tornar permanente.
- SAF (Sociedade Anônima de Futebol)
- Modelo empresarial de gestão de clubes de futebol que impõe regras de transparência e segurança jurídica aos investimentos.
- PEC (Proposta de Emenda à Constituição)
- Projeto de lei que propõe mudanças no texto da Constituição Federal, exigindo votação qualificada para aprovação.
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



