BNLData aponta erros de interpretação em coluna de Míriam Leitão sobre apostas
Análise do portal especializado identificou comparação entre métricas incompatíveis e enquadramento macroeconômico que os próprios dados citados pela colunista não sustentam.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Uma nota publicada pela colunista Míriam Leitão no Globo Online, intitulada "Bets se tornam fator de desequilíbrio econômico e um problema social", foi alvo de checagem pelo portal BNLData, que identificou dois problemas centrais no texto: a comparação entre métricas distintas e incompatíveis, e um enquadramento macroeconômico que os próprios números apresentados pela jornalista não conseguem sustentar.
A confusão entre dois limites legais
O ponto de partida da análise de Leitão é legítimo: dados obtidos pelo repórter Bernardo Lima junto ao Ministério da Fazenda via Lei de Acesso à Informação indicam que as casas de apostas receberam R$ 220,6 bilhões em movimentações durante 2025, e que R$ 37 bilhões — equivalentes a 16,7% do total — permaneceram com as operadoras como receita, representando as perdas líquidas dos apostadores. A aritmética está correta. O problema, segundo a BNLData, está na interpretação: a coluna afirma que o percentual retido pelas bets supera o "teto legal de 15% estabelecido pela legislação". A norma citada existe, mas não se aplica ao contexto utilizado. O limite de 15% de retenção — ou RTP (Retorno ao Apostador) mínimo de 85% — está previsto na Portaria SPA/MF nº 1.207/2024 e vale exclusivamente para jogos online de cassino, como crash, roleta, cartas e slots. Essa regra não abrange as apostas de quota fixa, segmento que responde por parcela expressiva do volume total do setor. O que a Lei 14.790/2023 e suas portarias regulamentadoras estabelecem para o conjunto do mercado é uma regra distinta: a partilha do GGR (Gross Gaming Revenue), pela qual as operadoras podem reter até 87% da receita bruta para custear operações, destinando os 13% restantes a áreas como seguridade social, esporte, educação e segurança pública. Trata-se de uma métrica fiscal, sem relação com o RTP pago ao apostador nem com a taxa de retenção calculada sobre o volume apostado total.
O salto para "desequilíbrio econômico"
O segundo ponto levantado pela BNLData é de enquadramento. Ao classificar as bets como "fator de desequilíbrio econômico" no Brasil, a coluna recorre a um termo normalmente associado a desajustes sistêmicos de natureza fiscal, cambial ou de balanço de pagamentos. Os R$ 37 bilhões de GGR das apostas em 2025, no entanto, equivalem a cerca de 0,3% do PIB brasileiro — estimado em torno de R$ 12 trilhões no mesmo ano. Uma fatia com relevância social inegável, mas distante da escala a que esse tipo de classificação costuma se referir. A BNLData também aponta que o uso da cifra bruta de R$ 220,6 bilhões como medida de impacto tende a distorcer a percepção de magnitude, já que esse valor inclui reapostas de prêmios recebidos; a representação mais precisa do dinheiro efetivamente retirado da economia seria o GGR de R$ 37 bilhões. O portal ressalva, porém, que o próprio texto de Leitão desenvolve um argumento mais embasado na sequência — o da "drenagem de recursos dos orçamentos familiares", especialmente os de menor renda —, que tem respaldo direto nos dados disponíveis e seria, segundo a análise, a moldura mais adequada aos números apresentados.
Contexto e dados confirmados
A coluna de Míriam Leitão foi publicada dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocar reunião de emergência no Palácio do Alvorada, em 18 de agosto, para discutir com o vice-presidente Geraldo Alckimin e oito ministros o futuro das apostas esportivas no país. O enquadramento adotado pela jornalista converge com a posição que o governo vinha sinalizando publicamente ao longo do ano, favorável a maior regulação e controle do setor. A BNLData faz questão de destacar que os dados brutos citados na coluna são consistentes com o que o próprio setor reporta oficialmente: o GGR do mercado regulado de apostas de quota fixa somou R$ 20,07 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026, segundo balanço da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF) — ritmo anual compatível com os R$ 37 bilhões registrados em 2025. A conclusão do portal é que os números não estão errados; o que falha é a conexão deles a uma norma inaplicável e a um enquadramento que extrapola o que as cifras efetivamente demonstram.
Por que isso importa
- A comparação feita na coluna confunde duas métricas distintas: confronta o hold rate de 16,7% (retenção sobre o handle total) com um limite de RTP de 15% que se aplica apenas a cassinos online, não ao mercado de apostas de quota fixa.
- O enquadramento de 'desequilíbrio econômico' nacional extrapola a escala real: R$ 37 bilhões de GGR representam cerca de 0,3% do PIB brasileiro, uma fatia relevante mas distante de ajustes sistêmicos que justifiquem essa classificação macroeconômica.
- Os dados brutos citados (R$ 37 bilhões em receita retida) sustentam um argumento de impacto social e distributivo concentrado em orçamentos de menor renda, não de desequilíbrio econômico nacional.
Entenda os termos
- RTP (Retorno ao Apostador)
- Percentual mínimo de receita que as operadoras de jogos online devem devolver aos apostadores; estabelecido em lei para cada modalidade.
- GGR (Gross Gaming Revenue)
- Receita bruta de jogo, ou seja, o montante que as operadoras retêm após pagar os prêmios aos apostadores; base de cálculo para impostos e partilha com beneficiários públicos.
- Handle
- Valor total movimentado em apostas, incluindo reapostas de prêmios já recebidos; cifra bruta que diferencia-se do GGR (receita líquida retida pela operadora).
- Portaria SPA/MF nº 1.207/2024
- Norma que fixa o RTP mínimo de 85% exclusivamente para jogos online de cassino (crash, roleta, cartas e slots), não aplicável a apostas de quota fixa.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



