📅 Atualizado 3× ao dia · Mercado regulado pela SPA/MF
Editorial

Aqui tem propaganda de bet

Quinze veículos que respeito anunciaram em julho que não aceitam publicidade de apostas. Este site aceita. Devo a você a explicação — e ela não é a que você espera.

Pedro Macedo · Editor 18 de agosto de 2026

Vou começar pela parte incômoda: os números que eles citam são verdadeiros.

É verdade que R$ 3 bilhões saíram de contas do Bolsa Família para apostas em um único mês de 2024. É verdade que os afastamentos por ludopatia no INSS explodiram. É verdade que uma investigação analisou quase 50 mil anúncios e encontrou 73,8% prometendo ganho extraordinário. Não vim aqui dizer que esses dados estão errados, porque não estão. Quem responde a um manifesto negando os fatos que ele apresenta não está argumentando — está vendendo alguma coisa.

Minha discordância é outra, e é sobre a conclusão. Recusar o anúncio legal não resolve nenhum desses problemas. Resolve um problema menor e mais confortável: o de não ter que explicar o anúncio para o leitor.

O dado que ninguém colocou no manifesto

Em agosto deste ano, num julgamento no Supremo Tribunal Federal, o ministro Dias Toffoli citou um levantamento de instituição financeira com uma informação que devia ter parado o debate: das 20 maiores receptoras de Pix do país ligadas a apostas, 15 são plataformas clandestinas.

Não são as 83 empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas. São as outras — as que não têm CNPJ conhecido, não recolhem tributo, não têm limite de depósito, não oferecem autoexclusão e não respondem a processo administrativo nenhum. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva mostrou que, em maio de 2026, metade dos apostadores brasileiros ainda usava site ilegal. Era 62% no ano anterior. Melhorou. Continua sendo metade.

A Secretaria de Prêmios e Apostas já bloqueou mais de 60 mil domínios clandestinos. Sessenta mil. E ainda assim eles ficam com quase metade do mercado.

A pergunta que o manifesto não faz é simples: quando o apostador para de ver o anúncio da casa autorizada, ele para de apostar — ou passa a apostar onde não há ninguém olhando?

Quem pune a bet ilegal por ludopatia?

Ninguém. E é aí que o argumento da saúde pública se vira contra a própria conclusão.

Em agosto deste ano a SPA suspendeu 14 plataformas de apostas, de seis empresas — incluindo a Pixbet, uma das maiores do país — por descumprimento de regras de jogo responsável e por não enviar dados à fiscalização. Não foi denúncia de jornal: foi o regulador usando o poder que a regulamentação lhe deu, contra empresas que ele conhece pelo CNPJ.

Até hoje o Brasil registra 35 sanções e 7 medidas cautelares aplicadas a operadoras autorizadas. Cada uma com número de processo, empresa identificada e decisão publicada. Quantas sanções foram aplicadas às plataformas clandestinas que ficam com metade do mercado? Nenhuma, porque não há a quem notificar.

A ludopatia é real e é grave. Mas o jogador que desenvolve dependência numa casa autorizada tem autoexclusão, limite de depósito, um regulador que pode suspender a operação e um portal onde a punição fica registrada. O que desenvolve dependência num site clandestino não tem nada disso. Empurrar o mercado para a clandestinidade não protege o vulnerável — remove dele a única proteção que existe.

Sobre o anúncio que promete dinheiro fácil

Aqui os signatários estão certos, e eu vou além do que eles pediram.

Aquela investigação dos 49.979 anúncios encontrou algo que quase ninguém noticiou: 9,1% deles eram de plataformas não regularizadas. Mais de quatro mil anúncios de gente que não podia nem estar ali. E não estavam num portal de jornalismo — estavam nas grandes plataformas de tecnologia, que aceitam qualquer cartão de crédito e não verificam autorização da SPA. Tanto que a Câmara dos Deputados quer convocar Google, Meta, TikTok e X para explicar exatamente isso.

Desde 17 de julho, toda peça publicitária de aposta no Brasil precisa trazer uma das advertências do Ministério da Fazenda — "apostar pode causar dependência", "apostar faz você perder dinheiro", "aposta não é investimento" — ocupando no mínimo 10% do anúncio. É proibido exibir prêmio, sugerir ganho fácil ou apresentar aposta como caminho de êxito pessoal. A regra vale para quem produz, para quem divulga e para quem veicula.

Um veículo que aceita anúncio de bet é obrigado a cumprir isso, e responde se não cumprir. A plataforma clandestina não cumpre nada, porque a norma não a alcança. Boicote de veículo sério não atinge o anúncio predatório: atinge o anúncio que já é o mais regulado dos dois.

O que este site faz com o dinheiro do anúncio

Aceitar publicidade de bet cria uma obrigação, não uma dispensa. A minha é esta: manter no ar, de graça e sem cadastro, a base pública que qualquer pessoa pode consultar para saber com quem está lidando.

Publiquei a suspensão da Pixbet por falha em jogo responsável. Publiquei as sete cautelares da SPA. Publico quando uma casa autorizada é punida, e a ficha dela neste site mostra a punição junto com o CNPJ. Se um anunciante for suspenso amanhã, a notícia sai aqui e a página dele passa a exibir isso — foi assim que construí este site e é assim que ele vai continuar.

Duas coisas que eu não faço

Não publico matéria com tom de incentivo à aposta, não indico casa, não faço "dica de palpite" e não opero apostas. Publicidade neste site é publicidade — identificada, separada do conteúdo, e nunca escrita pela redação. O que os signatários chamam de "publicidade nativa que imita conteúdo editorial" é uma prática que eu também considero indefensável.

E não aceito anúncio de plataforma sem autorização da SPA. Não por virtude: porque é ilegal, e porque eu mantenho a lista de quem pode e de quem não pode a um clique daqui.

Por que isso importa além das bets

Existe uma lógica confortável no jornalismo que diz: quando o assunto é sujo, o certo é não encostar. Ela é confortável porque não exige nada além do gesto. Nenhum apostador endividado teve a dívida perdoada porque um site recusou um banner.

A alternativa dá mais trabalho: aceitar o anúncio do mercado que a lei permitiu, cobrar dele em público, e usar o que ele paga para manter no ar a informação que torna a cobrança possível. É mais desconfortável e mais fácil de atacar — inclusive com este texto, que qualquer um pode usar contra mim se eu deixar de publicar uma punição amanhã.

Aqui tem propaganda de bet. E tem, na mesma página, a lista de quem foi punido. Prefiro ser cobrado por isso do que aplaudido por não ter feito nada.

18+

Apostas são destinadas a maiores de 18 anos e envolvem risco financeiro real. Apostar não é investimento e não é fonte de renda. Se o jogo deixou de ser entretenimento para você ou para alguém próximo, procure ajuda: nossa página sobre jogo responsável reúne canais de apoio e ferramentas de autoexclusão.

Fontes citadas

Dados de bloqueio e fiscalização: Secretaria de Prêmios e Apostas (audiência na Câmara, 11/8/2026). Participação do mercado ilegal: Instituto Locomotiva/IBJR, maio de 2026. Receptoras de Pix: levantamento citado pelo ministro Dias Toffoli em julgamento no STF. Análise de anúncios: Aos Fatos, 49.979 peças entre janeiro/2024 e março/2025. Regras de publicidade: Portaria SPA/MF nº 1.964/2026 e Portaria Interministerial MF/SECOM/MJSP nº 73/2026. Sanções e cautelares: SPA — Subsecretaria de Ação Sancionadora.