Toffoli: proibição total das bets fortalece mercado ilegal, alerta ministro do STF
Durante julgamento no Supremo, ministro citou dados de instituição financeira que apontam 15 das 20 maiores receptoras de Pix como bets clandestinas.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O ministro Dias Toffoli usou a tribuna do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira (6/8) para defender que a proibição absoluta das apostas esportivas produziria efeito contrário ao desejado: em vez de eliminar o problema, empurraria o setor para a clandestinidade. "Se você proíbe tudo, vai para a ilegalidade. E a ilegalidade é pior, porque o Estado não tem controle", afirmou o ministro durante sessão plenária.
A declaração foi feita no âmbito do julgamento do RE 966.177, que discute se o artigo 50 da Lei das Contravenções Penais — que tipifica a exploração de jogos de azar e data de 1941 — foi recepcionado pela Constituição de 1988. O recurso tem repercussão geral reconhecida e envolve princípios como livre iniciativa, autonomia individual e proporcionalidade. Toffoli aproveitou o debate para contextualizar o cenário atual, argumentando que a expansão das apostas on-line criou uma realidade completamente distinta da existente quando a norma foi editada. "É um mundo novo, complexo e difícil. Não é aquele mundo da década de 40. Nós temos que realmente nos dedicar mais tempo a isso", concluiu.
Bets ilegais dominam transferências via Pix
Para dimensionar o avanço das plataformas clandestinas, Toffoli citou dados macroeconômicos fornecidos por uma instituição financeira: entre os 20 maiores recebedores de transferências via Pix da entidade, 15 seriam bets ilegais. Segundo o ministro, essas operações se valem de CNPJs que desaparecem após captar os recursos dos usuários, deixando os apostadores sem qualquer possibilidade de recuperar os valores transferidos. "Eles enganam o cidadão e somem do mercado", disse. Toffoli fez questão de distinguir essas plataformas das empresas devidamente licenciadas — que aparecem em transmissões esportivas e estão sujeitas à fiscalização —, classificando as clandestinas como o problema mais grave, especialmente quando operam a partir de países com os quais o Brasil não mantém relações diplomáticas.
Divergência suspende o julgamento
No campo social, o ministro defendeu que o fenômeno das apostas atinge pessoas de todas as idades, classes e faixas de renda, chegando a caracterizá-lo como "uma doença social" que exige atenção do poder público. O relator do processo, ministro Luiz Fux, votou pela validade da norma contestada, sendo acompanhado pelo ministro Flávio Dino. Este, porém, defendeu que o STF avalie de forma articulada todas as ações que tratam da regulamentação das bets, a fim de evitar decisões incompatíveis entre diferentes modalidades de jogos. A divergência sobre o alcance do julgamento levou Dino a pedir vista, o que suspendeu a análise. O caso segue pendente de conclusão.
O julgamento ocorre em um momento de intensa movimentação regulatória no setor. Desde janeiro de 2025, o mercado brasileiro de apostas esportivas opera sob regime licenciado, supervisionado pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. A coexistência de operadores autorizados com plataformas ilegais é um dos principais desafios do novo marco regulatório, tornando o debate no STF diretamente relevante para o futuro do setor no país.
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