Setor regulado de bets contesta números divulgados por campanhas antiaposta no Brasil
Movimentos "Brasil Contra as Bets" e "Block do Tigrinho" tiveram engajamento aquém do esperado e tiveram dados questionados por representantes das plataformas licenciadas.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Duas campanhas lançadas há cerca de duas semanas no Brasil com o objetivo de pressionar o setor de apostas online — o "Brasil Contra as Bets" e o "Block do Tigrinho" — estão no centro de uma disputa sobre a precisão dos dados que divulgam. Representantes das empresas licenciadas e regulamentadas apontam inconsistências nos números apresentados pelas iniciativas, que reúnem entidades da sociedade civil, artistas e figuras públicas em ações coordenadas contra plataformas de apostas esportivas e jogos online.
Em termos de adesão, os movimentos não alcançaram a mobilização massiva esperada para campanhas com participação de artistas de grande projeção nacional. O "Brasil Contra as Bets", que atua diretamente na esfera legislativa com a apresentação de projetos de lei no Congresso, reuniu 48.520 apoiadores em seu site após duas semanas. Uma petição correlata no Change.org, criada em 25 de maio de 2026 e voltada à proibição da publicidade de bets no Brasil, foi assinada por 597 pessoas no mesmo período. Já o "Block do Tigrinho", com foco na mobilização cultural, registrou maior engajamento: 92,7 mil seguidores no Instagram e mais de 30 mil assinaturas em seu abaixo-assinado. A campanha conta com nomes como Anitta, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Emicida, Marieta Severo, Alinne Moraes e Camila Pitanga. Até a primeira-dama Janja Lula da Silva gravou vídeo criticando o impacto das apostas no orçamento das famílias e defendeu medidas do governo federal, como a tributação do setor, a criação de regras para novas licenças e uma plataforma unificada de autoexclusão que bloqueia o CPF em todos os sites autorizados.
Números contestados
Um dos principais pontos de atrito envolve dados divulgados pelo "Block do Tigrinho". A campanha afirma que "57% dos endividados começaram com as Bets", o que resultaria em 47,4 milhões de pessoas — cifra superior ao total de 25,2 milhões de brasileiros que, segundo o Ministério da Fazenda, realizaram apostas em 2025. O setor regulado também questiona a afirmação, presente em vídeo da campanha, de que "desde 2023 que R$ 143 bilhões saíram do mercado e foram parar nas apostas online". Para que esse valor fosse correto, os apostadores teriam de perder aproximadamente R$ 48 bilhões por ano, segundo representantes das plataformas licenciadas. Outro ponto de controvérsia é um estudo das instituições IESPS e Unifesp que aponta 12,8 milhões de pessoas com comportamento de risco relacionado a apostas — número que, em relação ao total de apostadores registrado pelo Ministério da Fazenda, indicaria que cerca de metade do universo teria algum tipo de problema com o jogo. O setor regulado também contesta a metodologia do mesmo estudo, que estima custos de "perda de qualidade de vida, tratamentos médicos, depressão e suicídio" que "podem chegar a R$ 30,6 bilhões". Dados oficiais do governo indicam que 12,96% da população brasileira apostou em 2025, com ticket médio mensal de R$ 122,00.
Empregos e legislação
Outra divergência diz respeito à geração de empregos. Dados atribuídos ao Ministério do Trabalho de 2024 indicariam que o setor criou 1.144 empregos formais, com média de 19 por empresa, e informações atribuídas ao IBGE do mesmo ano sugeririam que 84% dos trabalhadores do setor não contribuem para a previdência. O setor regulado, porém, ressalta que a regulamentação ocorreu no segundo semestre de 2024 e que as operações efetivas só tiveram início em 2025 — tornando os dados de 2024 inadequados para retratar o mercado atual. Representantes das empresas licenciadas afirmam que o setor gera hoje mais de 25 mil empregos diretos e 40 mil indiretos. Paralelamente às campanhas, foram apresentados dois projetos de lei no Congresso Nacional: o PL 2478/26, na Câmara dos Deputados, e o PL 2470/26, no Senado. Ambos propõem alterações à Lei nº 14.790/2023 e abordam temas como proibição de jogos de alto risco, restrição de publicidade e responsabilização das plataformas.
Diante da pressão pública, as empresas regulamentadas também se manifestaram cobrando do Ministério da Fazenda regras mais rigorosas e maior fiscalização contra plataformas ilegais e o fornecimento clandestino do jogo "Fortune Tiger". A estratégia busca desvincular as operadoras licenciadas do rótulo de plataformas predatórias associado pelas campanhas ao setor como um todo. O episódio evidencia a tensão crescente entre os movimentos de pressão social e um mercado que opera sob regulação da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda desde o início de 2025.
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