Relatório do BTG sobre Assaí não comprova alta de vendas atribuída ao fim das bets
Documento do banco usa linguagem condicional ao mencionar apostas e não apresenta nenhum dado de vendas do quarto trimestre. Afirmação do CEO Belmiro Gomes não tem respaldo nos números.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O relatório do BTG Pactual que teria embasado a manchete "Assaí já sente alta das vendas após fim das bets", publicada pelo jornal O Globo em 14 de outubro, não contém qualquer número que sustente essa conclusão. O documento, intitulado Playing the long game e datado de 13 de outubro, foi acessado pelo BNLData e menciona as apostas em apenas duas frases — ambas no modo condicional. Segundo o texto, os sinais de melhora no consumo "podem estar refletindo" os efeitos iniciais das restrições às apostas online; e, "se sustentado", o menor gasto com bets "poderia" apoiar o consumo de alimentos. Em nenhum momento o relatório afirma que houve alta de vendas.
O documento de oito páginas foi produzido após um café da manhã dos analistas do banco com o CEO do Assaí, Belmiro Gomes, o diretor financeiro Rafael Sachete e a gerente de relações com investidores Gabrielle Helu. Os executivos relataram "sinais iniciais de melhora" no consumo no quarto trimestre, especialmente em cidades do interior e em bairros de menor renda — mas sem apresentar dados concretos. O próprio BTG reconhece no texto que o terceiro trimestre segue difícil, com "pressão persistente sobre volumes", e que "uma recuperação sustentada do consumo ainda não se materializou". O objetivo central do relatório é uma recomendação de compra das ações, com elevação do preço-alvo de R$ 11 para R$ 16, motivada sobretudo pela reprecificação dos ativos domésticos após o primeiro turno eleitoral e pela sensibilidade da empresa ao nível dos juros.
A associação entre o desempenho do Assaí e as apostas não é nova. Belmiro Gomes faz essa ligação publicamente desde 2023. Em abril de 2025, no evento anual da Abras, o executivo afirmou ter pesquisas internas que demonstravam queda nas vendas de alimentos relacionada às bets e chegou a citar R$ 30 bilhões mensais como o volume que estaria saindo do consumo. Esses estudos nunca foram divulgados, e a cifra confunde depósitos com perda efetiva. Os dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda mostram que o GGR — a receita bruta dos operadores, ou seja, o que os apostadores efetivamente perderam — somou R$ 36,9 bilhões em todo o ano de 2025, cerca de R$ 3 bilhões por mês, quase dez vezes menos do que o número mencionado pelo CEO. Quando o Assaí apresentou resultados abaixo da meta em agosto de 2025 e as ações caíram 3,8%, Belmiro voltou a apontar as apostas como causa — mas o próprio balanço da companhia atribuiu o resultado à perda de poder de compra e à troca por produtos mais baratos, sem quantificar o peso das bets.
A tese da melhora imediata atribuída à proibição das apostas — formalizada pela Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026 — também enfrenta problemas de ordem cronológica. O quarto trimestre começou em 1º de outubro, e as plataformas só foram obrigadas a retirar sites e aplicativos do ar em 6 de outubro. Quando os executivos do Assaí se reuniram com os analistas do BTG, havia pouco mais de uma semana de operação sem as bets autorizadas. Além disso, a MP determinou a devolução de cerca de R$ 1,3 bilhão que estava depositado nas contas de 26,5 milhões de apostadores — o que pode ter gerado algum efeito pontual no caixa das famílias em outubro, sem que isso represente mudança estrutural de comportamento.
Há ainda o problema do mercado ilegal. Dados do sistema LegitBet, compartilhados pela ANJL, indicam que a divulgação de links de sites suspeitos de apostas cresceu cerca de sete vezes após a edição da MP. Em 8 de outubro, já sem os sites autorizados no ar, foram identificados 55 novos domínios suspeitos. O próprio relatório do BTG registra um paralelo relevante: a gestão do Assaí atribuiu a contribuição positiva dos cigarros nas vendas do primeiro semestre de 2026 à redução do contrabando paraguaio — ou seja, quando o mercado ilegal é combatido, o consumo migra para o canal legal. Com as apostas, o movimento foi inverso: fechou-se o mercado regulado sem eliminar o clandestino. A ausência de dados verificáveis, o horizonte de tempo exíguo e a expansão do mercado ilegal tornam a narrativa de recuperação imediata das vendas, no mínimo, prematura.
O que isso diz sobre o mercado
- O Assaí atribui sinais de melhora nas vendas à proibição das bets sem apresentar um único número sobre o desempenho de outubro — o documento do BTG usa apenas condicionais ('pode estar refletindo', 'poderia apoiar') e não menciona 'alta de vendas'.
- A tese enfrenta limites de prazo (apenas uma semana entre o fechamento das plataformas e a reunião com o BTG) e base comparativa fraca (terceiro trimestre foi deprimido), além de não descontar o impacto da devolução de R$ 1,3 bilhão aos apostadores ou a migração para plataformas clandestinas.
- O padrão reproduz um discurso que o executivo mantém desde 2023 — culpando as apostas pelo fraco desempenho — mas nunca sustentado com dados públicos verificáveis, enquanto o GGR efetivo foi de cerca de R$ 3 bilhões/mês em 2025, não os R$ 30 bilhões alegados.
Entenda os termos
- GGR (Gross Gaming Revenue)
- Receita bruta do operador de apostas, calculada como o total de depósitos menos o total de prêmios pagos aos apostadores — é o valor que o apostador efetivamente perde.
- Medida Provisória nº 1.394 (MP 1.394)
- Ato que proibiu apostas de quota fixa no Brasil em 25/09/2026, determinando que plataformas saíssem do ar em 5/10 e que saldos fossem devolvidos aos apostadores.
- Relatório de recomendação de compra
- Documento de análise bancária que avalia uma empresa e recomenda aos investidores a compra ou venda de suas ações, com preço-alvo.
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



