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Jogo Responsável

Psicólogo defende agenda de pesquisa e política de saúde mental para apostas no Brasil

Cristiano Costa, diretor de conhecimento da EBAC, critica abordagem apenas proibitiva do jogo responsável e propõe seis dimensões de atuação pública, da educação ao cuidado integral.

Psicólogo defende agenda de pesquisa e política de saúde mental para apostas no Brasil

Imagem ilustrativa gerada por IA

A regulamentação do mercado de apostas esportivas no Brasil avançou de forma acelerada nos últimos anos, com a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) estabelecendo licenças, regras operacionais e exigências de publicidade para as operadoras autorizadas. Mas, para Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo), o arcabouço normativo ainda caminha na frente da infraestrutura de prevenção e cuidado. "Meu diagnóstico é que a regulamentação brasileira avançou mais rapidamente do que a nossa infraestrutura de prevenção, orientação especializada e cuidado. Estamos construindo as regras; agora precisamos construir, com a mesma seriedade, a política de saúde mental que deve acompanhá-las", afirma.

Além das advertências obrigatórias

As portarias SPA/MF nº 1.964 e Interministerial MF/Secom/MJSP nº 73 tornaram obrigatória a exibição de alertas nas propagandas de apostas, como avisos sobre dependência, risco de perda financeira e a frase de que "aposta não é investimento". Para Costa, as medidas têm valor, mas não podem ser tratadas como política completa. "As advertências são uma camada de proteção, e não uma política de prevenção completa", pondera. O especialista defende que o país adote uma agenda nacional de pesquisa com dados anonimizados das operadoras e avaliação independente dos efeitos dessas mensagens. "Não basta sabermos quantas mensagens foram veiculadas; precisamos saber o que aconteceu com as pessoas depois que elas foram expostas a essas mensagens", declara. Segundo ele, é necessário medir se os consumidores compreendem os alertas, se modificam crenças equivocadas e se passam a utilizar mais as ferramentas de autolimitação disponíveis nas plataformas.

Seis dimensões para uma política pública efetiva

Costa propõe que uma política de jogo responsável abranja pelo menos seis frentes: educação sobre probabilidade, aleatoriedade e vieses cognitivos; campanhas permanentes de prevenção voltadas a grupos vulneráveis; detecção precoce de mudanças comportamentais; intervenção ativa com jogadores em situação de risco; cuidado integral via SUS para casos de Transtorno do Jogo; e pesquisa contínua para avaliar o impacto das medidas adotadas. "Não podemos construir uma política de Jogo Responsável apenas dizendo ao cidadão onde ele não pode apostar, o que não pode ser anunciado e quais frases precisam aparecer na publicidade", critica. O psicólogo também chama atenção para o desconhecimento do público sobre ferramentas como autoexclusão e limites de depósito, que já integram a legislação brasileira. "Não adianta existir um botão de pausa ou de autoexclusão se a pessoa só descobre que ele existe depois de perder o controle, acumular dívidas e comprometer as relações na família", alerta.

Publicidade regulada, mercado ilegal e influenciadores

O especialista também avalia os riscos de proibições amplas à publicidade de operadoras licenciadas em espaços públicos, medida adotada por algumas cidades e estados. Para ele, restrições excessivas podem enfraquecer a distinção entre empresas autorizadas e plataformas clandestinas. "Quando retiramos completamente a comunicação do mercado regulado do espaço público, podemos reduzir a capacidade de diferenciação entre o operador autorizado daquele que atua clandestinamente", observa. Costa lembra que os operadores legalizados utilizam o domínio ".bet.br" e que o Ministério da Fazenda mantém lista pública das empresas habilitadas — mas avalia que esse conhecimento ainda não chegou ao grande público. No campo dos influenciadores digitais, ele considera positiva a atualização das regras do CONAR, que prevê credenciamento e monitoramento de postagens, mas faz uma ressalva: "credenciamento não pode significar simplesmente um selo burocrático. É necessário que o influenciador conheça os princípios básicos do setor como probabilidade e aleatoriedade, tipos e modos de uso das ferramentas de autolimitação e Jogo Responsável, o que são vieses cognitivos, bem como os primeiros sinais de comportamento problemático".

Sobre o julgamento no STF do Tema 924 — que discute a constitucionalidade do art. 50 da Lei das Contravenções Penais e foi suspenso em 6 de agosto de 2026 após pedido de vista do ministro Flávio Dino —, Costa defende que a incerteza jurídica não deveria paralisar a construção da política de proteção às pessoas. "A discussão jurídica sobre a exploração dos jogos não deveria paralisar a discussão sobre proteção das pessoas", afirma, propondo que o poder público separe a pergunta sobre a legalidade de cada modalidade da pergunta sobre como amparar quem desenvolve relação problemática com o jogo.

Análise BetNotícias

O que isso muda na regulação

  • A regulamentação brasileira avançou mais rapidamente na criação de restrições (alertas, proibições) do que na construção de infraestrutura de prevenção e saúde mental, criando um vazio entre regras estabelecidas e capacidade real de proteção ao apostador.
  • Operadoras enfrentam dilema: regras de publicidade rigorosa podem favorecer concorrentes ilegais que não têm obrigações, criando assimetria competitiva onde plataformas autorizadas aparecem mais restritivas que clandestinas.
  • A eficácia de alertas obrigatórios permanece desconhecida por falta de avaliação independente com dados das operadoras, permitindo que conformidade regulatória seja cumprida sem comprovação de mudança comportamental real.

Entenda os termos

Jogo Responsável
Conjunto de práticas e políticas que visam reduzir danos associados às apostas, incluindo ferramentas de autolimitação, alertas sobre riscos e acompanhamento de comportamentos problemáticos.
Autoexclusão
Ferramenta que permite o apostador bloquear sua própria conta por um período definido, impedindo acesso à plataforma mesmo se tentar entrar.
Vieses cognitivos
Padrões de pensamento inconscientes que distorcem a percepção de realidade, como ilusão de controle ou supervalorização de ganhos recentes em apostas.
Transtorno do Jogo
Doença mental caracterizada pela incapacidade de controlar o impulso de jogar, resultando em dano psicológico, financeiro e social.
Fonte original
Com informações de iGaming Brazil →

A apuração inicial deste fato é de iGaming Brazil. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.

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