Lula encontra presidente do Uruguai e cita interesse na regulação de bets do país
Em reunião bilateral em Nova York, o presidente brasileiro manifestou vontade de conhecer o modelo uruguaio de apostas online — mas especialistas apontam que os dois países têm realidades incomparáveis.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, na manhã desta segunda-feira (21), na residência oficial do embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Danese, em Nova York. O encontro durou pouco menos de uma hora e ocorreu à margem da semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU. Em publicação no X, Lula afirmou ter "manifestado interesse em conhecer a experiência uruguaia de regulamentação das apostas online (bets)", além de tratar de temas como infraestrutura, comércio agrícola e integração latino-americana.
O que é, de fato, o "modelo uruguaio"
Ao contrário do que a referência de Lula pode sugerir, o Uruguai não opera um mercado de apostas online com múltiplos operadores privados. A única plataforma autorizada nacionalmente é a Supermatch, administrada sob concessão pela empresa La Banca e restrita a apostas esportivas. O senador uruguaio Felipe Carballo, autor de um projeto de lei apresentado em novembro de 2025 para reformar o setor, descreve o arranjo atual como um "monopólio privado de fato", no qual o Estado não participa diretamente da maior parte dos lucros gerados. O próprio presidente Orsi classificou como um "absurdo" o fato de o Estado uruguaio chegar a multar clubes de futebol locais quando emissoras estrangeiras exibem, durante transmissões internacionais, publicidade de bets patrocinadoras de times adversários. Tentativas de abrir o mercado uruguaio à iniciativa privada esbarram há anos no Legislativo: um projeto aprovado pelo Senado desde agosto de 2022 segue parado na Câmara dos Deputados, e uma proposta apresentada pelo setor de cassinos em agosto de 2026 ainda tramita sem previsão de votação.
Uma comparação de escalas incompatíveis
Além das diferenças estruturais, há uma questão de escala que torna a comparação problemática. O Uruguai tem população estimada entre 3,4 e 3,5 milhões de habitantes — número equivalente a cerca de 10% do total de apostadores ativos no Brasil. Em 2025, aproximadamente 25,5 milhões de pessoas utilizaram plataformas autorizadas no país, contingente quase sete vezes maior que toda a população uruguaia. A movimentação diária da Supermatch gira em torno de US$ 30 a 35 mil em dias normais, podendo atingir US$ 75 a 80 mil em grandes eventos — volumes que não oferecem parâmetros de fiscalização, tecnologia de rastreamento ou modelo tributário transponíveis para a realidade brasileira. Em 2026, o diretor da Dirección Nacional de Loterías y Quinielas (DNLQ) estimou que o mercado ilegal de jogos no Uruguai movimenta cerca de US$ 700 milhões por ano, evidenciando que o modelo fechado tampouco resolveu o problema da ilegalidade.
Contexto brasileiro e leitura política da declaração
O Brasil já possui um arcabouço regulatório próprio: a Lei 13.756, de 2018, abriu o setor às apostas esportivas, e a regulamentação foi concluída entre 2023 e 2024 pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, com operadores obrigados a obter licença e cumprir exigências técnicas, tributárias e de conformidade. O governo Lula articula ainda uma medida provisória para proibir os cassinos virtuais, mantendo bets esportivas e patrocínios a clubes e competições fora do alcance da restrição. Nesse cenário, analistas do setor avaliam que a menção ao Uruguai tem contornos mais diplomáticos do que técnicos: o país vizinho não dispõe de um modelo de mercado aberto regulado que possa ser importado — e o próprio Orsi reconhece as limitações do arranjo vigente. A declaração, no entanto, mantém o tema das bets na pauta pública em um momento em que o Executivo busca afirmar protagonismo na discussão sobre a regulação do setor.
| Aspecto | Uruguai | Brasil |
|---|---|---|
| Estrutura | Monopólio estatal-concessionário (Supermatch/La Banca) | Mercado regulado com múltiplos operadores |
| Operadores privados autorizados | Nenhum | Múltiplos |
| Movimentação diária (Supermatch) | US$ 30-35 mil (dias normais); US$ 75-80 mil (grandes eventos) | Não informado |
| Mercado ilegal estimado (2026) | Aproximadamente US$ 700 milhões/ano | Entre 38% e 44% do total apostado |
| População | ~3,4 a 3,5 milhões | ~215 milhões |
| Usuários de plataformas autorizadas (2025) | Não informado | ~25,5 milhões |
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



