Lula critica BC por caso de apostador, mas governo já tem ferramentas de controle
Em live de campanha, presidente questionou por que o Banco Central não detectou 1.400 transações via Pix de um apostador em três meses — competência que, por lei, cabe à Secretaria de Prêmios e Apostas do próprio Ministério da Fazenda.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Durante transmissão ao vivo voltada a apoiadores e influenciadores digitais, na noite do último domingo (13 de setembro de 2026), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) relatou ter se reunido horas antes com oito pessoas que descreveu como "vítimas das bets". Em um dos casos mencionados, um apostador teria realizado 1.400 transações via Pix em três meses para a mesma empresa. Lula então direcionou a crítica ao Banco Central: "Hoje conheci um rapaz que fez 1.400 pix em 3 meses e o Banco Central não descobriu que é pix demais para a mesma empresa? Estamos passivos diante da sociedade que está se matando de dívida?". O presidente também citou o caso de uma mulher que "viu um filho de 26 anos se matar" e mencionou ter estado em uma reunião em que "o cara ficou devendo R$ 2 bilhões em apenas 3 meses". Reafirmou que sua vontade é "fechar" as empresas de apostas, classificando o mercado como "uma coisa incontrolável".
A fiscalização do setor não é do BC — e o Sigap já captura esses dados
A cobrança pública ao Banco Central ignora uma divisão legal de competências: quem autoriza, monitora, fiscaliza e sanciona as operadoras de apostas de quota fixa no Brasil é a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda. E a SPA já opera, desde o início de 2025, o Sistema de Gestão de Apostas (Sigap) — desenvolvido pelo Serpro —, que recebe diariamente das operadoras licenciadas cinco tipos de arquivos com dados de atividade, incluindo movimentação individual de carteiras de apostadores, além de um arquivo mensal consolidado. Na prática, o padrão de 1.400 Pix em três meses para uma mesma plataforma é exatamente o tipo de comportamento que o Sigap foi desenhado para identificar — dentro da estrutura do próprio governo Lula, não do Banco Central.
Autoexclusão centralizada e rede de saúde mental: iniciativas do mesmo governo
Além do Sigap, o governo lançou em dezembro de 2025 a Plataforma Centralizada de Autoexclusão (gov.br/autoexclusaoapostas), também desenvolvida pelo Serpro a pedido da SPA. Por meio de um único cadastro via conta gov.br, o cidadão pode bloquear simultaneamente o acesso a todos os sites autorizados, impedir novos cadastros com seu CPF e deixar de receber publicidade direcionada de casas de apostas — com as operadoras tendo até 72 horas para efetivar o bloqueio. A ferramenta resultou de um grupo de trabalho interministerial que reuniu Fazenda, Saúde, Esporte e a Secom da Presidência. Na mesma ocasião, os ministérios da Fazenda e da Saúde anunciaram o Observatório Brasil Saúde e Apostas Eletrônicas, com previsão de serviço de teleatendimento em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, capacitação de equipes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e um autoteste de saúde mental disponível via WhatsApp, Meu SUS Digital e o serviço OuvSUS (136). Os próprios dados governamentais revelam crescimento nos atendimentos por transtorno do jogo no SUS: de 2.262 em 2023 para 3.490 em 2024, com 1.951 registros apenas no primeiro semestre de 2025.
Mercado ilegal concentra o maior risco — e segue fora do radar do discurso
Outro ponto que o discurso presidencial deixa de lado é a proporção real do setor regulado na economia. Segundo balanço da própria SPA, o mercado licenciado registrou receita bruta (GGR) de cerca de R$ 37 bilhões em 2025 — entre R$ 36,7 bilhões e R$ 37 bilhões, conforme números citados pelo governo —, enquanto o PIB brasileiro somou R$ 12,7 trilhões no mesmo ano, de acordo com o IBGE, o que coloca a receita do setor em menos de 0,3% do produto interno bruto. Mais relevante para a proteção do apostador, porém, é o mercado clandestino: levantamento da LCA Consultores, com base em pesquisa do Instituto Locomotiva encomendada pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), estimou que entre 38% e 44% das apostas on-line realizadas no primeiro semestre de 2026 ocorreram em plataformas ilegais — índice que, apesar de ter recuado em relação à faixa de 41% a 51% registrada em 2025, ainda figura entre os mais altos do mundo. São justamente essas plataformas que operam sem Sigap, sem autoexclusão obrigatória e sem qualquer exigência de jogo responsável, representando risco maior ao apostador do que as empresas já sujeitas à supervisão da SPA. O arcabouço regulatório em construção desde a Lei 14.790/2023 — sancionada pelo próprio Lula — já prevê instrumentos de proteção ao apostador, e medidas anteriores do mesmo governo já haviam restringido a publicidade das bets e bloqueado o acesso de beneficiários do BPC e do Bolsa Família às plataformas.
A live de domingo integrou um dia de mobilização do PT em torno da candidatura de Lula à reeleição em 2026, período em que pesquisas eleitorais apontam disputa acirrada com Flávio Bolsonaro. O anúncio de que o presidente "discute" o que fazer com as bets e cogita "fechar" o mercado ocorre enquanto três frentes de controle — fiscalização via Sigap, autoexclusão centralizada e atendimento em saúde mental pelo SUS — já estão em operação, todas criadas pela equipe econômica e de saúde do próprio governo federal.
O que está em jogo
- O governo Lula já dispõe de três ferramentas operacionais desde 2025-2026 (SIGAP, autoexclusão centralizada e rede de saúde mental no SUS) para detectar e bloquear padrões de endividamento por apostas, incluindo o caso relatado pelo presidente de 1.400 Pix em 3 meses — a responsabilidade dessas ferramentas recai sobre a SPA/Ministério da Fazenda, não sobre o Banco Central.
- A cobrança pública do presidente ao BC desloca a responsabilidade fiscalizatória para órgão que não regula apostas, enquanto o arcabouço regulatório da Lei 14.790/2023 (sancionada pelo próprio Lula) já prevê instrumentos de proteção que estão em operação.
- O mercado regulado representa menos de 0,3% do PIB (R$ 37 bilhões em 2025 ante R$ 12,7 trilhões de PIB), enquanto 38-44% das apostas on-line ainda ocorrem em plataformas clandestinas sem SIGAP, autoexclusão ou controles de jogo responsável — alvo mais eficaz para reduzir risco ao apostador do que o fechamento do mercado supervisionado.
Entenda os termos
- SIGAP
- Sistema de Gestão de Apostas desenvolvido pela SPA/Ministério da Fazenda que monitora diariamente as operadoras licenciadas, recebendo dados sobre cadastro de apostadores e movimentação de carteiras em tempo quase real.
- Autoexclusão centralizada
- Plataforma lançada em dezembro de 2025 (gov.br/autoexclusaoapostas) que permite ao cidadão bloquear simultaneamente o acesso a todos os sites de apostas autorizados, indisponibilizar seu CPF para novos cadastros e cessar publicidade direcionada.
- GGR
- Gross Gaming Revenue, ou receita bruta do jogo; no contexto brasileiro, refere-se ao faturamento total do mercado regulado de apostas, que foi cerca de R$ 37 bilhões em 2025.
- BPC e Bolsa Família
- Programas de transferência de renda do governo federal; beneficiários desses programas já tiveram bloqueado o acesso a sites de apostas por medida anterior do próprio governo Lula.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



