KYC nas bets: comunicações suspeitas ao Coaf saltam de 928 para 27,6 mil em um ano
A regulamentação das apostas de quota fixa elevou drasticamente o volume de alertas ao órgão de inteligência financeira e coloca a verificação de identidade como peça central do combate à lavagem de dinheiro.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O mercado brasileiro de apostas regulado tem produzido um efeito concreto e mensurável sobre a fiscalização financeira do setor. Dados recentes do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelam que, em 2025, o órgão recebeu 27,6 mil comunicações de operações suspeitas envolvendo empresas de apostas e loterias — contra apenas 928 notificações registradas em 2024. O salto expressivo é reflexo direto da obrigatoriedade, imposta às plataformas autorizadas, de reportar ao Coaf qualquer movimentação considerada atípica. O panorama foi compilado pela Legitimuz, empresa brasileira especializada em verificação de identidade para o setor de iGaming.
Mercado regulado responde às exigências, diz presidente do Coaf
Durante o BiS SiGMA Brasília 2026, Ricardo Saadi, presidente do Coaf, avaliou que o mercado regulado de apostas tem, em sua maioria, seguido as boas práticas exigidas pela legislação brasileira e buscado constantemente novos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro. A declaração reforça que o aumento no volume de comunicações não necessariamente indica piora no cenário de crimes financeiros, mas sim maior aderência dos operadores às obrigações de reporte — um dos pilares do novo marco regulatório.
O que a lei exige dos operadores
A base legal que sustenta essas obrigações combina a Lei das Apostas (Lei 14.790/2023) com a Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/1998), ambas regulamentadas por portarias do Ministério da Fazenda e da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Entre as exigências impostas às plataformas licenciadas estão: identificação e verificação da identidade real de cada apostador pelo processo conhecido como KYC (Know Your Customer); monitoramento contínuo de transações e comportamentos de aposta; comunicação ao Coaf de situações suspeitas; manutenção de sede no Brasil, domínio .bet.br e sistemas integrados ao Banco Central e ao Coaf; além de mecanismos de análise de risco para liberação de prêmios de alto valor, incluindo prazos de segurança para pagamentos via Pix. A própria natureza digital das plataformas facilita práticas como uso de contas de terceiros, apostas cruzadas e fracionamento de valores, tornando a etapa de verificação de identidade um ponto crítico de controle.
KYC: rigor e velocidade em equilíbrio
Antes mesmo do monitoramento de transações, o KYC define quem está, de fato, apostando. Um processo de verificação eficaz combina três camadas: validação documental por reconhecimento óptico de caracteres (OCR), prova de vida (liveness) e verificação facial (FaceMatch), aplicadas no cadastro e reativadas em movimentações de risco, como saques de valores elevados. Segundo a Legitimuz, a eficácia desse processo depende do equilíbrio entre dois fatores que frequentemente entram em tensão: rigor na verificação e velocidade de aprovação. Um KYC lento provoca abandono de cadastro; um KYC frágil abre brechas para os esquemas de ocultação que a regulamentação pretende combater. O desafio para as operadoras é sustentar ambos simultaneamente, inclusive nos momentos de pico de tráfego, quando o volume de novos usuários mais pressiona a operação.
O aumento expressivo nas comunicações ao Coaf sugere que a fiscalização está funcionando conforme projetado pelo arcabouço regulatório. À medida que o mercado amadurece, a tendência apontada por especialistas e autoridades é de aprofundamento dos mecanismos de controle, com maior integração entre KYC, monitoramento transacional e reporte às autoridades competentes — tornando a conformidade não apenas uma obrigação legal, mas um componente estrutural da operação das bets no Brasil.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



