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Regulação

Jogo do Bicho faz 136 anos: de loteria lícita a símbolo da proibição que não funciona

Criado em 1890 para salvar um zoológico carioca, o jogo do bicho sobreviveu a 131 anos de clandestinidade e segue sem regulamentação — uma história que ressoa no debate atual sobre as bets.

Jogo do Bicho faz 136 anos: de loteria lícita a símbolo da proibição que não funciona

Imagem ilustrativa gerada por IA

Nesta terça-feira, 13 de outubro, o jogo do bicho completa 136 anos desde sua criação oficial. Poucas práticas brasileiras resistiram por tanto tempo a tantas ondas de repressão: o bicho atravessou o fim do Império, a República Velha, o Estado Novo, a ditadura militar e a Nova República. Sobreviveu, acima de tudo, a 131 anos de proibição expressa.

Um zoológico sem subsídio e uma ideia mexicana

A origem do jogo está longe do glamour que a lenda popular costuma atribuir a ele. João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, era fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, em Vila Isabel, e mantinha o negócio com uma generosa subvenção do governo imperial. Com a Proclamação da República, em 1889, o Barão perdeu prestígio e, com ele, o subsídio. Quem sugeriu a solução foi o mexicano Manuel Ismael Zevada, frequentador do parque, que propôs adaptar a chamada Loteria das Flores — que já conhecia — para uma "loteria dos bichos". Drummond levou a ideia ao Conselho de Intendência Municipal e obteve, em 13 de outubro de 1890, a assinatura de um termo aditivo ao contrato do zoológico autorizando a exploração de "jogos públicos lícitos". Zevada foi nomeado o primeiro gerente da operação. A mecânica era simples: quem comprasse o ingresso de mil réis recebia um bilhete com a figura de um animal; ao fim da tarde, o bicho do dia era revelado e o bilhete sorteado rendia vinte mil réis. O Barão mandou pintar 25 animais — os mesmos grupos que o jogo mantém até hoje. A primeira extração oficial ocorreu num domingo, 3 de julho de 1892, e o bicho sorteado foi o avestruz, que ocupa o grupo 1 da tabela até os dias atuais.

Da legalidade à clandestinidade

O sucesso foi imediato. A Elite e o povo passaram a se misturar em Vila Isabel não pelos animais, mas pelo sorteio vespertino. O jogo rapidamente transbordou os muros do zoológico: comerciantes e intermediários começaram a vender bilhetes pela cidade, criando uma rede que o próprio Barão já não conseguia controlar. Entre 1892 e 1894 a atividade operou de forma legal, mas a pressão moral e o crescimento das bancas clandestinas levaram o prefeito do Rio, Francisco Furquim Werneck de Almeida, a rescindir o contrato com o zoológico e proibir o jogo em 1895. O efeito foi inverso ao esperado: o zoológico entrou em decadência, e o bicho, despido da legalidade, não desapareceu. Passou a ser gerido por redes de banqueiros que desafiariam a repressão por mais de um século. O Estado brasileiro empilhou proibições ao longo das décadas seguintes — a Lei nº 628, de 1899; a Lei nº 2.321, de 1910; o Decreto nº 21.143, de 1932; e, em 1941, o Decreto-Lei nº 3.688, a Lei de Contravenções Penais, que incluiu expressamente o bicho entre as infrações e segue em vigor 85 anos depois. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra ainda fechou os cassinos do país pelo Decreto-Lei nº 9.215. Nenhuma dessas normas fez o jogo sumir. A clandestinidade apenas reorganizou o mercado: banqueiros dividiram territórios, consolidaram estruturas de cobrança e pagamento, e a tolerância das autoridades frequentemente se sustentou em propina.

A legalização que ainda não veio — e o eco nas bets

Hoje, o PL nº 2.234/2022, que prevê a legalização de cassinos, bingos e do próprio jogo do bicho, com licenciamento, tributação e fiscalização, já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas aguarda votação no plenário. O aniversário de 136 anos chega num momento em que o paralelo histórico ganhou contornos concretos: em 25 de setembro de 2026, o governo federal editou a Medida Provisória nº 1.394, proibindo as apostas de quota fixa — as bets — menos de dois anos após concluir a regulamentação do setor pela Lei nº 14.790/2023. O governo aponta o endividamento das famílias e os danos à saúde dos apostadores como justificativas. A MP veda novos depósitos desde 25 de setembro, determina a retirada dos sites do ar em 5 de outubro, a devolução dos saldos pelos bancos até cerca de 14 de outubro e a extinção de todas as autorizações da Secretaria de Prêmios e Apostas em 25 de outubro. Assim como o bicho foi proibido em 1895 num cenário em que o mercado paralelo já estava fora do controle do concessionário original, as bets foram proibidas num ambiente em que operadores ilegais ainda respondiam por mais de 40% das apostas mesmo após 22 meses de regulação. A história do jogo do bicho já oferece uma resposta sobre o que costuma acontecer a seguir: a demanda não some, ela migra — para onde não há imposto, proteção ao apostador nem mecanismos de jogo responsável.

Análise BetNotícias
Marcos legais de criminalização do jogo do bicho no Brasil
AnoNormaDescrição
1895Revogação da licença municipalPrefeito Francisco Furquim Werneck de Almeida rescinde contrato e proíbe o jogo
1899Lei nº 628Introduz penas de prisão para quem pratica jogos de azar
1910Lei nº 2.321Amplia punições e alcança expressamente o jogo do bicho, com até seis meses de prisão
1917Conferência Judiciária-PolicialReafirma criminalização, mas eficácia prejudicada por dificuldade de provas e possibilidade de fiança
1932Decreto nº 21.143Endurece penas no governo provisório de Vargas
1941Decreto-Lei nº 3.688 (Lei de Contravenções Penais)Inclui explicitamente o jogo do bicho entre as infrações (continua em vigor)
1946Decreto-Lei nº 9.215Presidente Eurico Gaspar Dutra proíbe jogos de azar e fecha cassinos do país

O que isso muda na regulação

  • O caso do jogo do bicho demonstra que 131 anos de proibição não eliminaram a atividade: ela simplesmente migrou para a clandestinidade, perdendo tributação e proteções ao apostador.
  • A Medida Provisória nº 1.394/2026 que proíbe as bets segue o mesmo padrão histórico de 1895 — pressão moral e interferência moral em mercado que já financia setores públicos (esporte, turismo, segurança), sem endereçar o mercado ilegal que continua operando e crescendo.
  • A ausência de legalização permite que operadores clandestinos capturem o fluxo de apostas sem fiscalização, imposto ou mecanismos de proteção, consolidando estruturas paralelas de poder que a proibição nunca conseguiu eliminar.

Entenda os termos

Lei de Contravenções Penais
Decreto-Lei nº 3.688 de 1941 que tipifica infrações penais de menor potencial ofensivo, incluindo jogos de azar como o jogo do bicho; continua em vigor.
Loteria das Flores
Jogo de azar tradicional, possivelmente de origem mexicana, que serviu de modelo para a criação do jogo do bicho ao adaptar-se a temas de animais.
Termo aditivo
Documento que modifica ou complementa um contrato anterior; neste caso, permitiu ao Barão de Drummond explorar jogos públicos lícitos no zoológico.
Quota fixa
Modelo de apostas em que o retorno é pré-definido pelo operador independentemente do volume total de apostas; utilizado em apostas esportivas e cassino online.
Fonte original
Com informações de BNLData →

A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.

18+ Conteúdo informativo. Desde 25/09/2026, as apostas de quota fixa estão proibidas no Brasil (MP 1.394). O BetNotícias não opera nem indica apostas. Se o jogo trouxe prejuízo, procure o CAPS mais próximo ou ligue 188 (CVV).