Governo arrecadava até 1,8 vez o lucro das bets; depósitos não eram perda total
Análise com dados oficiais da Fazenda mostra que até 89% dos depósitos retornavam ao apostador, e a arrecadação pública superava o lucro líquido das operadoras em todos os cenários.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou na última terça-feira (6), ao apresentar o balanço da proibição das apostas de quota fixa, que entre R$ 600 milhões e R$ 650 milhões por dia "saíam da poupança popular" para as casas de apostas — valor que na sexta-feira anterior (2) ele mesmo havia citado como R$ 600 milhões. Projetando R$ 650 milhões ao longo de dez dias, chega-se a R$ 6,5 bilhões, quantia que Durigan comparou a 8 milhões de cestas básicas. O dado tem origem em informações do Banco Central sobre transferências para contas das operadoras, mas mede apenas o que entrou nas plataformas, sem descontar o que retornou aos apostadores em prêmios e saques.
O que efetivamente ficava com as empresas é o GGR (Gross Gaming Revenue, receita bruta de jogo). Segundo dados da própria Fazenda obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação, o GGR totalizou R$ 36,9 bilhões em 2025 e R$ 20,07 bilhões no primeiro semestre de 2026 — cerca de R$ 101 milhões por dia em 2025 e R$ 111 milhões por dia em 2026, aproximadamente um sexto do valor apresentado pelo ministro. Considerando um retorno ao apostador entre 85% e 89%, de R$ 5,53 bilhões a R$ 5,79 bilhões dos R$ 6,5 bilhões voltavam em prêmios. O próprio balanço de Durigan reforça esse quadro: 86,2 milhões de contas tinham saldo entre R$ 0,01 e R$ 0,99, e apenas 1% dos apostadores — cerca de 200 mil pessoas — concentrava 80% do R$ 1,325 bilhão pendente de devolução, perfil de um público majoritariamente recreativo, não de famílias com a poupança retida nas plataformas.
A distribuição de cada R$ 100 depositados expõe ainda outra distorção na narrativa oficial: o governo arrecadava mais do que as operadoras lucravam. Sobre o GGR incidiam a contribuição de 13%, o ISS (de 2% a 5% conforme o município), o PIS (1,65%) e a Cofins (7,6%). Somados ao IRPJ e à CSLL sobre o lucro, os tributos levavam ao poder público entre R$ 261,6 milhões e R$ 375,9 milhões dos mesmos R$ 6,5 bilhões em depósitos. O lucro líquido das operadoras, por sua vez, ficava entre R$ 153,4 milhões e R$ 228,3 milhões — equivalente a 2,36% a 3,51% do total. Em todos os cenários analisados, a arrecadação pública representava de 1,6 a 1,8 vez o lucro líquido das empresas. Os custos operacionais — em média 40% do GGR, ou de R$ 286 milhões a R$ 390 milhões — remuneravam fornecedores de tecnologia, meios de pagamento, folha salarial e obrigações regulatórias, recursos que também geravam renda e arrecadação adicionais.
O contexto regulatório torna o quadro ainda mais relevante. O mercado de apostas de quota fixa foi regulamentado em 2025 sob supervisão da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, que passou a autorizar operadoras, fixar regras de proteção ao apostador e arrecadar tributos sobre o setor. Em 25 de setembro de 2026, porém, a Medida Provisória nº 1.394 proibiu as apostas esportivas e de cassino online no país, extinguindo todas as autorizações da SPA em 25 de outubro. Com a proibição, desaparecem junto ao lucro das empresas os tributos, os empregos e os contratos que esse faturamento sustentava — uma consequência que o próprio Durigan havia antecipado em junho, quando avaliava que uma eventual proibição poderia ser prejudicial por estimular e ampliar o mercado ilícito. A MP, que vale por 60 dias prorrogáveis por mais 60, ainda depende de aprovação do Congresso e é alvo de ações no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Luiz Fux.
| Destino | Cenário 85% retorno | Cenário 89% retorno |
|---|---|---|
| Retorno ao apostador em prêmios | R$ 85,00 | R$ 89,00 |
| Tributos sobre GGR (Contribuição 13%, ISS 2-5%, PIS 1,65%, Cofins 7,6%) | R$ 3,64 a R$ 4,09 | R$ 2,67 a R$ 3,00 |
| Custos operacionais (40% do GGR) | R$ 3,65 a R$ 4,95 | R$ 2,68 a R$ 3,63 |
| IRPJ e CSLL (sobre lucro) | R$ 1,24 a R$ 1,85 | R$ 0,91 a R$ 1,36 |
| Lucro líquido das operadoras | R$ 2,36 a R$ 3,51 | R$ 1,74 a R$ 2,64 |
| Total arrecadado pelo governo | R$ 4,02 a R$ 5,78 | R$ 3,58 a R$ 4,72 |
O que isso diz sobre o mercado
- A análise dos fluxos reais revela que o governo arrecadava entre 1,6 e 1,8 vez mais do que o lucro líquido das operadoras sobre os mesmos R$ 6,5 bilhões depositados em dez dias, contradizendo a apresentação de depósitos como 'perda total' da poupança popular.
- De cada R$ 100 depositados, 85 a 89 reais retornavam aos apostadores; apenas 11% a 15% configurava receita bruta das bets, consolidando um perfil de jogadores recreativos com saldos residuais nas plataformas.
- Com a proibição pelas bets pela MP 1.394, desaparecem não apenas o lucro empresarial, mas também a arrecadação tributária (entre R$ 261,6 e R$ 375,9 milhões em dez dias) e os custos operacionais (R$ 286 a R$ 390 milhões) que sustentavam empregos e contratos com fornecedores.
Entenda os termos
- GGR (Gross Gaming Revenue)
- Receita bruta de jogo: a diferença entre depósitos recebidos e prêmios pagos aos apostadores; sobre ela incidem os impostos e custos operacionais.
- Contribuição de 13%
- Tributo específico sobre a receita bruta das apostas de quota fixa, conforme a regulamentação das bets.
- Retorno ao Jogador (RTP)
- Percentual do dinheiro depositado que volta aos apostadores em forma de prêmios; a diferença é a receita da operadora.
- MP 1.394
- Medida Provisória que proibiu as apostas de quota fixa no Brasil a partir de 25 de setembro de 2026, extinguindo as autorizações da SPA.
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



