Galípolo culpa crédito caro, não bets, pelo superendividamento das famílias
Na abertura da Febraban Tech 2026, o presidente do Banco Central detalhou com números as causas reais do endividamento crescente — e apostas esportivas não entraram na equação.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Na manhã desta segunda-feira (24/8), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, usou seu espaço na abertura da Febraban Tech 2026, evento promovido pela Federação Brasileira de Bancos em São Paulo, para apresentar um diagnóstico detalhado sobre o superendividamento das famílias brasileiras. Cartão de crédito rotativo, consignado privado e linhas de crédito sem garantia foram os vetores apontados por ele. Apostas esportivas não foram mencionadas uma única vez em sua fala.
Os números trazidos por Galípolo dimensionam o problema. No Brasil, 96 milhões de pessoas utilizam cartão de crédito; desse total, 52,8 milhões carregam dívida no rotativo ou em parcelamentos com juros — mais que o dobro da base de apostadores ativos no país. O comprometimento médio da renda das famílias com gastos no cartão saltou de 38,5% para 54%, com juros mensais de 15,1% no rotativo. Já a carteira do consignado privado mais que dobrou entre março de 2025 e maio de 2026, passando de R$ 41 bilhões para R$ 102 bilhões. No crédito pessoal não consignado, a inadimplência avançou de 5% para 6,7% no mesmo intervalo, enquanto a taxa de juros para o público de maior risco subiu de 40,9% para 57% ao ano. O índice de superendividamento das famílias, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), está em 82%.
O tamanho real das bets na economia
Os dados do próprio setor de apostas dificultam a tese de que as bets seriam o motor do endividamento. O GGR — receita bruta das operadoras — somou R$ 37 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de 0,3% de um PIB estimado em R$ 12 trilhões. Para comparação, o saldo do crédito pessoal não consignado chegou a aproximadamente R$ 400 bilhões em maio de 2026, valor mais de dez vezes superior ao GGR anual de todo o mercado regulado de apostas. Além disso, o tíquete médio mensal dos apostadores recuou de R$ 122,00 em 2025 para R$ 108,27 no primeiro semestre de 2026, queda superior a 11%. Se as bets fossem um vetor de endividamento crescente, o movimento esperado seria o oposto. Vale lembrar ainda que a regulamentação brasileira, sob as diretrizes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, proíbe expressamente o uso de cartões de crédito nas plataformas — os depósitos são realizados exclusivamente via Pix, justamente para impedir que apostadores se endividem para jogar.
O diagnóstico do regulador
Galípolo descreveu o que chamou de "paradoxo": mesmo com renda mais alta e desemprego mais baixo, o endividamento e a inadimplência das famílias seguem batendo recordes. A explicação, segundo ele, está na natureza das linhas de crédito disponíveis, não no lazer. "O problema é estar endividado com alguma coisa que não está constituindo um ativo, é um consumo efêmero, especialmente com uma taxa de juros mais elevada ou com uma linha de crédito que não é adequada", afirmou o presidente do BC. Ele também enunciou a lógica causal de forma direta: "Se você promoveu, de alguma maneira, uma elevação do crédito, é normal você esperar que o endividamento também cresça." A expansão acelerada do crédito ao consumidor — com parcelamentos sem juros aparentes, consignado privado e rotativo de cartão — criou uma estrutura em que o acesso fácil ao crédito precede o comprometimento da renda. Essa é a conclusão que emerge dos dados apresentados na Febraban Tech 2026, e ela não passa pelas plataformas de apostas.
| Tipo | Valor/Métrica | Período/Data |
|---|---|---|
| GGR (receita bruta) de apostas | R$ 37 bilhões | 2025 |
| % do PIB (bets) | 0,3% | 2025 |
| Crédito pessoal não consignado | R$ 400 bilhões | maio de 2026 |
| Apostadores brasileiros com cartão rotativo ou parcelado | 52,8 milhões | não informado |
| Tíquete médio mensal de apostas | R$ 108,27 | 1º semestre 2026 |
| Tíquete médio mensal de apostas | R$ 122,00 | 2025 |
| Variação do tíquete médio | -11% (retração) | 2025 a 1º sem. 2026 |
| Consignado privado | R$ 41 bilhões | março de 2025 |
| Consignado privado | R$ 102 bilhões | maio de 2026 |
| Variação do consignado privado | Mais que dobrou | março 2025 a maio 2026 |
| Cartão rotativo - comprometimento da renda | 38,5% | referência inicial |
| Cartão rotativo - comprometimento da renda | 54% | período recent |
| Juros mensais (cartão rotativo) | 15,1% | não informado |
| Inadimplência (crédito não consignado) | 5% | março de 2025 |
| Inadimplência (crédito não consignado) | 6,7% | maio de 2026 |
| Taxa de juros (maior risco, não consignado) | 40,9% a.a. | março de 2025 |
| Taxa de juros (maior risco, não consignado) | 57% a.a. | maio de 2026 |
| Usuários de cartão de crédito | 96 milhões | não informado |
| Superendividamento (índice CNC) | 82% | não informado |
O que isso diz sobre o mercado
- O diagnóstico do Banco Central posiciona o crédito ao consumidor — cartão rotativo, consignado privado e linhas sem garantia — como principal vetor do superendividamento das famílias, não as apostas esportivas, que representam apenas 0,3% do PIB e vêm com tíquete médio em queda.
- A narrativa de culpabilidade das bets carece de suporte numérico: o saldo de crédito pessoal não consignado (R$ 400 bilhões) supera o GGR anual de todo o setor regulado de apostas (R$ 37 bilhões) por mais de dez vezes, enquanto apostadores gastam menos (queda de 11% no tíquete médio).
- As plataformas de apostas já estão impedidas de aceitar cartão de crédito e boletos por regulamentação da SPA, medida especificamente adotada para proteger famílias do endividamento — diferente do crédito consignado privado, que mais que dobrou em um ano e incide sobre os mesmos públicos vulneráveis.
Entenda os termos
- GGR
- Gross Gaming Revenue — receita bruta das operadoras de apostas, ou seja, o total apostado menos os prêmios pagos aos apostadores.
- Crédito consignado privado
- Empréstimo desconto em folha de holerite (salário) oferecido por instituições financeiras privadas, com juros menores que outras linhas, mas sem regulação estrita como o consignado público.
- Cartão de crédito rotativo
- Modalidade de crédito no cartão em que o cliente paga apenas parte da fatura e carrega o restante para o mês seguinte com juros elevados, criando um ciclo de dívida contínua.
- SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas)
- Órgão do Ministério da Fazenda responsável por regular e conformidade do mercado de apostas esportivas no Brasil, incluindo definição de métodos de pagamento permitidos.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



