Fundador da Better World Casinos defende integração do jogo responsável ao produto no SBC Summit 2026
Floris Assies, confirmado como palestrante no maior evento da SBC, critica uso de dados para maximizar receita e alerta que danos ao jogo são inevitáveis, não meros riscos.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Floris Assies, fundador da Better World Casinos, estará entre os palestrantes do SBC Summit 2026, previsto para acontecer de 29 de setembro a 1º de outubro na Feira Internacional de Lisboa (FIL) e na MEO Arena. O encontro, considerado o maior evento organizado pela SBC, deve reunir aproximadamente 40 mil profissionais do ecossistema global de apostas e jogos, entre reguladores, operadores e afiliados. Em entrevista ao SBC Notícias Brasil, Assies antecipou os temas que pretende levar ao debate e traçou um diagnóstico crítico sobre os rumos éticos da indústria.
Tecnologia como amplificador — do lucro ou da proteção
Para Assies, o avanço da personalização baseada em dados não alterou os limites éticos do setor, mas sim as ferramentas disponíveis para transpô-los. "A personalização é um amplificador. Ela torna uma empresa melhor naquilo que ela está otimizando", afirmou. Segundo ele, os mesmos dados capazes de identificar um jogador em situação problemática são frequentemente utilizados para mantê-lo depositando — e a escolha de qual finalidade recebe investimento revela a prioridade real de cada operador. "A tecnologia não decide. A empresa decide", disse. "Escolher não olhar também é uma escolha."
Regulação vaga cria corrida ao fundo do poço
Ao tratar da relação entre operadores e reguladores, Assies usou o exemplo da Holanda para ilustrar o que chamou de "corrida para o fundo do poço". Quando o mercado holandês foi aberto, confiou-se que a indústria se autorregularia sob um dever geral de diligência, sem detalhamento prático — e, segundo ele, não funcionou. "Se você compete com rivais e confia que eles vão se conter, aquele que menos se contiver ficará com a maior fatia do mercado", explicou. Para o fundador da Better World Casinos, regras vagas criam espaço que o incentivo financeiro inevitavelmente preenche. O alerta se estende ao Brasil, mercado que iniciou sua regulamentação formal em 2025 sob supervisão da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda: "Para um mercado novo como o Brasil, é muito importante observar isso com atenção. Não se trata de verificar se as regras são rígidas no papel, mas se são específicas o suficiente para que a contenção não seja uma desvantagem competitiva."
Danos ao jogo não são risco — são inevitabilidade
Um dos pontos mais contundentes da entrevista foi a recusa de Assies em tratar os danos associados ao jogo como mero "risco". Apoiado no Modelo de Consumo Total, ele argumenta que o jogo patológico cresce de forma proporcionalmente mais acelerada do que a própria participação no mercado. "Chamar isso de risco faz parecer um resultado de falta de sorte, quando na verdade é inevitável", disse. Sobre a retenção de jogadores — frequentemente apresentada como alternativa mais sustentável à aquisição agressiva —, Assies também foi crítico: na prática, reter significa concentrar esforços no pequeno grupo responsável pela maior parte da receita, o chamado princípio de Pareto, o que, segundo ele, não necessariamente reduz os danos. Além disso, alertou que a expansão acelerada do mercado tende a provocar respostas regulatórias mais duras, o que, paradoxalmente, beneficia o mercado ilegal.
Jogo responsável integrado ao produto, não como apêndice
Ao antecipar os debates que espera ver ganhar centralidade nos próximos eventos do setor, Assies defendeu uma mudança de arquitetura: que o jogo responsável e a prevenção de danos sejam incorporados diretamente ao produto, e não implementados como uma camada posterior. Ele também sinalizou os mercados de previsão como a próxima fronteira de discussão sobre responsabilidade e confiança na indústria. Sobre fidelidade genuína do jogador, foi direto: "Você tem que demonstrar genuinamente que quer que as pessoas se divirtam e parecer que está entregando mais do que recebendo, gerando valor real para o jogador." Para ele, não é possível "otimizar alguém para gastar e esperar que essa pessoa te ame por isso".
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