Betsson na camisa do Boca no Maracanã acende debate jurídico sobre MP das bets
A exibição do patrocínio da casa de apostas em território brasileiro, durante a semifinal da Copa Sul-Americana, é potencialmente ilegal segundo especialistas — e expõe lacunas na aplicação da norma a clubes estrangeiros.
Foto: Fabio Souto / Pexels
O Boca Juniors entrou em campo no Maracanã na noite de terça-feira (20/10) com a marca da Betsson ocupando o espaço principal de sua camisa. A ocasião foi a vitória por 3 a 1 sobre o Vasco da Gama, que garantiu ao clube argentino vaga na final da Copa Sul-Americana. A cena, no entanto, gerou um imediato debate jurídico: a exibição de publicidade de apostas de quota fixa em solo brasileiro contraria a Medida Provisória nº 1.394/2026, editada pelo governo federal em 25 de setembro e que proibiu qualquer formato de patrocínio ou propaganda do setor no país — sem prever exceções para equipes estrangeiras em torneios internacionais.
A vedação vale independentemente da origem do contrato
Para Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados, o fato de o contrato ter sido assinado na Argentina não afasta a ilegalidade. "A medida provisória não distingue clubes brasileiros de estrangeiros: a vedação vale para qualquer publicidade de apostas exibida no país. A circunstância de o contrato de patrocínio ter sido firmado no exterior não altera essa conclusão. O que importa juridicamente é que a marca foi exibida em território brasileiro e vista pelo público brasileiro. Pela própria MP, esse tipo de exposição é considerado publicidade abusiva, o que atrai as sanções do Código de Defesa do Consumidor, sobretudo multas administrativas", declarou. Especialistas do setor acrescentam que a responsabilidade pode se estender de forma solidária às emissoras geradoras das imagens e ao clube mandante, a depender do nível de participação de cada parte na estrutura publicitária da partida.
Bernardo Freire Cavalcanti, sócio do Betlaw, escritório especializado na indústria de apostas, aponta que o episódio evidencia consequências que extrapolam as fronteiras brasileiras. "A proibição das bets não elimina simplesmente uma publicidade: ela exporta insegurança jurídica para contratos internacionais, obriga a Conmebol a redesenhar suas entregas comerciais e cria um conflito entre uma decisão unilateral do Brasil e relações comerciais celebradas legitimamente em outros países", afirmou. Para ele, a medida "vai na contramão do que acontece internacionalmente", ao mesmo tempo em que, segundo sua avaliação, pode fortalecer o mercado ilegal ao retirar do campo os operadores regulados.
Sobreposição virtual como saída — parcial
A Conmebol já adotou a tecnologia de sobreposição virtual nos painéis de LED como tentativa de conciliar os direitos comerciais dos clubes com as restrições da MP. No jogo de ida, disputado em Buenos Aires, o sistema foi aplicado nas transmissões da ESPN e do SBT: o sinal enviado ao Brasil não exibiu marcas de apostas, enquanto telespectadores de outros países da América Latina viram a logomarca da Bwin ao redor do campo. No Brasil, os painéis foram substituídos por mensagens institucionais ou por marcas de outros patrocinadores do torneio, como Amstel, Midea, Coca-Cola, DHL, EA Sports, TCL, Mercado Livre, Rexona, Powerade e Mastercard World. No Maracanã, porém, a camisa do Boca seguiu com a Betsson estampada — e essa sobreposição não é tecnicamente possível em uniformes.
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, ressalta que a solução tecnológica não resolve o desequilíbrio gerado entre clubes. "Uma mesma partida reúne clubes, patrocinadores e emissoras sujeitos a regras de diferentes países. Do ponto de vista do marketing, enquanto a marca permanece na camisa e aparece na transmissão, ela continua recebendo exposição e gerando lembrança, mesmo com a retirada das placas do campo. Isso pode criar um desequilíbrio comercial em relação aos clubes brasileiros que tiveram de retirar seus patrocinadores", avaliou. Luiz Guilherme, diretor de clubes e negócios da Agência End to End, resume o cenário: "Passamos a ter um futebol com duas realidades: imagem limpa para o Brasil e marca visível para o resto do continente." O executivo de iGaming Igor Sá, com passagem por empresas como Esportes da Sorte, BETesporte, F12 e HiperBet, reforça que a tecnologia de sobreposição "evidencia a necessidade de segurança jurídica e previsibilidade para as empresas que investem no esporte, aspectos que a recente medida do governo federal desconsiderou." O caso deve influenciar a conduta de outros clubes estrangeiros em partidas realizadas em território brasileiro e pressionar a Conmebol a rever sua dependência financeira do setor — a entidade mantém, por exemplo, uma parceria institucional com a Betano vigente até o final de 2028.
O que isso muda na regulação
- A exibição da marca Betsson na camisa do Boca no Maracanã viola a MP nº 1.394/2026 independentemente do contrato ter sido firmado no exterior, pois a vedação incide sobre qualquer publicidade de apostas exibida em território brasileiro, atraindo sanções por publicidade abusiva.
- A responsabilidade pode recair solidariamente sobre o clube visitante, as emissoras transmissoras e o clube mandante, criando insegurança jurídica para contratos internacionais e levando a Conmebol a adotar tecnologia de virtual overlays como solução de compatibilização.
- O modelo de restrição nacional a um produto esportivo internacional gera assimetria competitiva: clubes estrangeiros com patrocínio de bets mantêm exposição na camisa enquanto clubes brasileiros foram proibidos de exibir patrocinadores similares, sem critérios claros sobre quem assume os custos das adaptações técnicas.
Entenda os termos
- Medida Provisória (MP)
- Ato normativo editado pelo Presidente da República que entra em vigor imediatamente, mas depende de aprovação do Congresso Nacional para se converter em lei permanente.
- Virtual overlays
- Tecnologia de sobreposição de imagens que permite exibir conteúdos diferentes (como marcas e publicidade) para cada região que recebe a transmissão de uma partida, sem alterar o que ocorre fisicamente no estádio.
- Publicidade abusiva
- Exposição de marca ou mensagem considerada prejudicial ao consumidor ou contrária à lei, sujeita a sanções administrativas e civis conforme o Código de Defesa do Consumidor.
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



