América Latina: por que o mercado de apostas segue sem um padrão regional
Da tributação colombiana à regulação provincial argentina, cada país da região tem suas próprias regras — e elas mudam com frequência. Brasil, Peru e Colômbia ilustram bem essa fragmentação.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A América Latina não tem um código unificado de apostas. Cada país conduz seu próprio processo regulatório, em seu próprio ritmo, e o resultado é um mosaico de estruturas legais que exige de operadoras e apostadores uma atenção constante e mercado a mercado. Entender o que é legal em Bogotá não garante clareza sobre o que vale em Buenos Aires — e muito menos em Brasília.
Brasil lidera como referência, mas não como modelo único
O Brasil tornou-se o principal ponto de referência da região após seu primeiro ano completo sob a nova regulamentação de apostas esportivas. O mercado encerrou o período com R$ 37 bilhões em Receita Bruta de Jogos (GGR), superando a projeção de analistas, que era de cerca de R$ 31 bilhões. Ao longo desse ciclo, 79 operadoras obtiveram licença, aproximadamente 25,2 milhões de brasileiros — equivalente a 11,8% da população — realizaram ao menos uma aposta, e o governo arrecadou cerca de R$ 10 bilhões em tributos. O sequenciamento adotado aqui também chamou atenção: o licenciamento foi implementado primeiro, enquanto as restrições de publicidade e marketing vieram em etapas posteriores, à medida que o mercado se formalizava.
O Peru seguiu uma lógica diferente. O órgão regulador do país, o MINCETUR, construiu sua estrutura com base na Lei nº 31557 e no respectivo decreto de implementação. Mais de 90 operadoras já receberam autorização para atuar, e o regulador mantém bloqueio ativo contra plataformas não licenciadas. O esforço foi reconhecido internacionalmente: o Peru recebeu o prêmio de Regulador do Ano de 2025 do International Masters of Gaming Law, que destacou a abrangência da estrutura peruana para supervisão de cassinos, apostas esportivas e jogos online. Já a Colômbia, cujo órgão regulador é a Coljuegos, opera há anos com um modelo de concessão B2C. Em março de 2026, o governo colombiano assinou o Decreto 0240, que criou um imposto nacional de consumo de 16% sobre a receita bruta de jogos — cobrado no momento do depósito do usuário, e não no pagamento de prêmios. Uma lógica de conformidade que não tem equivalente direto nos demais mercados da região.
México, Chile e Argentina ampliam a complexidade
México, Chile e Argentina adicionam mais três variações ao cenário. No México, a legislação federal de jogos é anterior à internet, o que obriga as operadoras a trabalhar com uma estrutura que nunca foi desenhada para o ambiente digital — preenchendo lacunas via licenças e interpretação jurídica. Na Argentina, a regulação é provincial: uma plataforma autorizada na Província de Buenos Aires ainda precisa de aprovações separadas para operar legalmente em outras regiões do país, sem que exista uma licença nacional única. O Chile segue amadurecendo suas próprias regras de licenciamento e publicidade, acompanhando o movimento regional sem liderá-lo. Esse cenário não reflete falhas dos reguladores locais, mas a realidade de uma supervisão que chegou país a país, sem um padrão de bloco como o que orientou boa parte da União Europeia. O resultado prático para quem opera na região é que cada mercado demanda um projeto regulatório próprio — com cronograma, modelo tributário e limites de publicidade específicos. E para o apostador, a licença válida no ano passado não é garantia automática de conformidade no ano seguinte.
O que isso diz sobre o mercado
- A América Latina não possui padrão regulatório único: Brasil, Peru, Colômbia, México, Chile e Argentina aplicam marcos legais, estruturas tributárias e modelos de licenciamento distintos, exigindo que operadores adequem estratégias a cada jurisdição separadamente.
- Para apostadores, uma plataforma legal em um país pode estar em zona cinzenta ou ser totalmente ilegal em outro, e a situação muda quando decretos fiscais são implementados — verificar a legalidade mercado por mercado é essencial antes de apostar.
- O Brasil consolidou-se como referência regional (R$ 37 bi em GGR, 79 operadoras licenciadas, R$ 10 bi de impostos), servindo de modelo que Peru, Colômbia e demais países observam para equilibrar receita tributária com controle do mercado ilegal.
Entenda os termos
- GGR (Receita Bruta de Jogos)
- Valor total que as operadoras recebem dos apostadores antes de descontar premiações, impostos e custos operacionais — é a base de cálculo para tributos no setor.
- iGaming
- Categoria que agrupa apostas esportivas, cassino online, pôquer e loteria sob regulamentação comum, tratados cada vez mais pelos reguladores como um único segmento.
- Plataforma não licenciada
- Site ou aplicativo de apostas que opera sem autorização do órgão regulador do país, funcionando na ilegalidade e sem proteções ao apostador.
- Concessão B2C
- Modelo de licenciamento que autoriza uma empresa (operadora) a atender diretamente consumidores finais (apostadores), como adotado pela Colômbia.
A apuração inicial deste fato é de iGaming Brazil. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



