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Jogo Responsável

Psiquiatras definem critérios clínicos para identificar dependência em apostadores

Perda de controle, dano financeiro e isolamento social são as três dimensões centrais do transtorno do jogo; TST avalia estender às demissões de ludopatas a mesma proteção já aplicada a alcoólatras.

Psiquiatras definem critérios clínicos para identificar dependência em apostadores

Imagem ilustrativa gerada por IA

Especialistas em psiquiatria estabeleceram três pilares para distinguir o apostador recreativo do dependente clínico: perda de controle sobre o comportamento, prejuízo financeiro concreto e estreitamento progressivo da vida social em torno das apostas. As definições foram apresentadas por profissionais ouvidos pela Folha de S.Paulo e ganham relevância tanto no campo da saúde pública quanto no debate jurídico trabalhista que se desenvolve no Tribunal Superior do Trabalho (TST).

O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo Ambulatório de Tratamento de Dependências de Comportamentos do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) da Unifesp e com cerca de 30 anos de experiência no tratamento de jogadores compulsivos, identificou ainda um terceiro perfil situado entre o jogador ocasional e o dependente: o "investidor iludido". Esse indivíduo acredita ter desenvolvido uma estratégia capaz de garantir ganhos consistentes com apostas. Para o especialista, esse perfil "também cria problemas, também pode ter critérios para um diagnóstico de transtorno de jogo, mas não necessariamente é um dependente". A distinção, segundo ele, é especialmente difícil nos casos que chegam à Justiça do Trabalho: "Os extremos são sempre fáceis de diagnosticar. Aquilo no meio do caminho é que vai dar mais trabalho para diagnosticar."

O que diz o DSM-5

O referencial técnico utilizado pelos especialistas é o DSM-5, versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicada em 2013. O documento lista nove critérios para o diagnóstico de transtorno do jogo — entre eles, a necessidade de apostar valores crescentes para obter a excitação desejada, irritabilidade ao tentar parar, retorno ao jogo para recuperar perdas, mentiras para esconder o hábito e dependência de terceiros para quitar dívidas. O diagnóstico se confirma com a presença de pelo menos quatro desses critérios. Uma mudança relevante na publicação do DSM-5 foi a realocação do transtorno do jogo da categoria de transtornos do controle dos impulsos para a de dependências, ao lado dos transtornos por uso de substâncias, refletindo evidências de semelhança biológica e comportamental entre os dois grupos.

Conexões com o alcoolismo e dimensão neurológica

A aproximação entre ludopatia e dependência química tem respaldo na biologia. Vieira Júnior defende que o cérebro do jogador compulsivo desenvolve a mesma resposta dependente observada no uso de substâncias, sem que nenhuma droga seja ingerida. "A dependência é uma relação, não é um efeito que uma droga causa em você", afirma. A psiquiatra Lívia Beraldo, do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que três em cada quatro jogadores patológicos têm ao menos um diagnóstico psiquiátrico associado, sendo o álcool um dos mais frequentes — junto ao tabagismo, forma o que ela chama de tríade clássica do jogador. Em amostras clínicas, cerca de 50% das pessoas com transtorno do jogo relatam abuso de substâncias, e entre as que buscam tratamento para o jogo, até 63% já tiveram algum transtorno por uso de substâncias ao longo da vida. Estudos de neuroimagem identificam um circuito neural compartilhado entre os dois quadros. No campo farmacológico, a naltrexona — já aprovada para o tratamento da dependência de álcool — demonstrou eficácia também na redução da fissura por apostas, segundo Beraldo.

Debate jurídico e escala do problema no Brasil

No TST, discute-se se as regras aplicadas a demissões de trabalhadores com alcoolismo devem ser estendidas aos casos de ludopatia. Em súmula consolidada em 2012, o tribunal estabelece que a dispensa de trabalhador com doença estigmatizante presume discriminação e pode levar à reintegração ao emprego. Uma ala de ministros avalia aplicar essa proteção também às demissões vinculadas ao vício em apostas. O ministro Alexandre Agra Belmonte, coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro do TST, sintetizou o desafio: "É preciso diferenciar, com critérios técnicos, o que é um comportamento reprovável e o que é uma condição clínica que exige proteção." O debate ocorre em meio a um crescimento acelerado dos atendimentos no sistema público de saúde: o Ministério da Saúde registrou 6.157 atendimentos presenciais no SUS relacionados a apostas em 2025, número próximo ao dobro dos 3.490 registrados em 2024. Pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, aponta que cerca de 30 milhões de brasileiros com mais de 10 anos já apostaram online — o equivalente a aproximadamente um em cada cinco usuários de internet no país —, com maior prevalência entre homens (25%) do que entre mulheres (14%).

Fonte original
Com informações de BNLData →

Esta notícia foi reescrita pela redação do BetNotícias com base em apuração de terceiros. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.

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