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Jogo Responsável

Psiquiatra da USP vê avanços na regulação de bets, mas alerta para "tsunami" de vício

Hermano Tavares, do ambulatório de jogo patológico do HC-USP, celebrou medidas da SPA no Roda Viva, mas cobrou limites de apostas por renda e expansão do tratamento público.

Psiquiatra da USP vê avanços na regulação de bets, mas alerta para "tsunami" de vício

Imagem ilustrativa gerada por IA

O psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, usou a tribuna do programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (27), para traçar um diagnóstico ambivalente sobre a crise de vício em apostas no Brasil. Se por um lado descreveu o momento atual como um "tsunami" — e chegou a usar a palavra "pandemia" —, por outro reconheceu que iniciativas concretas já estão em curso, especialmente a partir da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, órgão responsável pela regulação do setor desde que a chamada Lei das Bets entrou em vigor.

Um dos relatos que mais chamou atenção foi o de que a SPA tomou a iniciativa de procurar a equipe de saúde do Hospital das Clínicas antes mesmo do Ministério da Saúde. "Quem nos chamou primeiro não foi o Ministério da Saúde. Quem nos chamou primeiro foi o Ministério da Fazenda através da pessoa do secretário da Secretaria de Prêmios e Apostas. E aí nós começamos a ter uma discussão, uma interlocução sobre quais seriam as primeiras medidas para tentar segurar a situação", afirmou Tavares. Desse diálogo resultaram duas ferramentas já disponíveis no site do Ministério da Fazenda: um sistema de autoexclusão, pelo qual qualquer cidadão pode cadastrar seu CPF e solicitar bloqueio nas plataformas regulamentadas — com quase 800 mil adesões até o momento —, e um questionário de triagem composto por três perguntas desenvolvidas a partir de pesquisas populacionais em parceria com a Caixa Econômica Federal. Segundo o especialista, responder "sim" a pelo menos uma delas indica chance superior a 90% de o usuário estar no espectro do jogo problemático. Quem é identificado em risco é encaminhado para tratamento online, atualmente conduzido em parceria com o Hospital Sírio-Libanês.

Tavares também deteve parte da entrevista para descrever a transformação do perfil dos apostadores ao longo das décadas. Quando fundou o ambulatório, em 1998, em plena chamada "primeira onda" ligada a bingos e caça-níqueis, a faixa etária predominante ficava entre 45 e 47 anos. Hoje, com a disseminação das apostas esportivas digitais acessíveis por smartphones, a média caiu para cerca de 30 anos ou menos. Os apostadores online, que nos anos 1990 representavam casos isolados, hoje correspondem a 65% da demanda do serviço. O psiquiatra atribuiu essa mudança à acessibilidade dos dispositivos móveis: segundo ele, o apostador atual não precisa sair de casa — pode jogar no quarto, no trabalho ou em uma pausa rápida no banheiro, com o cassino "a dois cliques de distância ou à distância do braço até o bolso da calça".

O especialista foi crítico ao conceito de "jogo responsável", comparando-o aos avisos "beba com moderação" das campanhas de bebidas alcoólicas — um mecanismo que, na sua avaliação, transfere ao consumidor a responsabilidade pelos danos enquanto desonera a indústria. "Quer ser responsável? Não aposte. Quer ser menos irresponsável? Aposte pouco", disse. Para Tavares, apostar ativa o sistema nervoso central por mecanismo semelhante ao do álcool e do tabaco, o que torna as apostas um produto diferente de qualquer outro de consumo convencional. Ele defendeu uma responsabilidade tripartite: o apostador deve ter consciência individual; o Estado precisa informar, regulamentar e prover tratamento; e a indústria tem obrigação de não promover apostas como fonte de renda e de eliminar das plataformas mecanismos que induzam falsa percepção de controle sobre resultados.

Entre as demandas que ainda não foram atendidas, Tavares destacou a necessidade de um teto de apostas atrelado à renda — algo em torno de 1% da renda mensal por dia, até quatro vezes ao mês — e o cruzamento de dados entre valores apostados e declaração de renda, como instrumento de combate tanto à lavagem de dinheiro quanto à dependência grave. Outra lacuna apontada é o financiamento do tratamento: questionado diretamente, o psiquiatra afirmou que seu ambulatório recebe "zero centavos" da arrecadação tributária sobre apostas, embora 1% dessa arrecadação seja destinado ao Ministério da Saúde, sem destinação específica conhecida para o setor. O serviço que coordena no Instituto de Psiquiatria da USP atende cerca de 120 casos novos por ano, mas recebe mais de 600 pedidos. Nos mais de 3 mil casos já tratados, 15% dos pacientes relataram tentativa de suicídio em decorrência de problemas com apostas, e 80% afirmaram ter cogitado a ideia em algum momento. Apesar do cenário, Tavares encerrou com uma nota de cautela otimista: "Me chame de otimista, mas eu acho que alguma coisa começou a ser feita, precisa fazer mais."

Fonte original
Com informações de BNLData →

Esta notícia foi reescrita pela redação do BetNotícias com base em apuração de terceiros. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.

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