Proibir apostas reguladas pode impulsionar mercado clandestino, alertam economistas
Análise da LCA Consultores aponta que eventual Medida Provisória contra as bets legais deslocaria apostadores para plataformas ilegais, sem proteção alguma.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Relatórios recentes dão conta de que o Palácio do Planalto estuda a edição de uma Medida Provisória para proibir as apostas de quota fixa no Brasil. A iniciativa seria motivada pela crescente preocupação com o endividamento das famílias e os riscos de dependência do jogo — questões legítimas, segundo os economistas Eric Brasil, Lara Coelho e Louise Cruz, da LCA Consultores. Contudo, eles advertem que fechar os canais autorizados pode deixar justamente os apostadores mais vulneráveis expostos a plataformas clandestinas, sem qualquer mecanismo de proteção.
O argumento central dos especialistas é reforçado pelos próprios números do setor. A LCA estima que o mercado ilegal ainda responda por entre 38% e 44% das apostas realizadas no Brasil — percentual que chegou a oscilar entre 41% e 51% em 2025, antes de recuar com os avanços da formalização. A melhora indica progresso, mas também revela que o ambiente clandestino permanece robusto. Vale lembrar que as apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018, porém o marco regulatório só foi aprovado em 2024, e o mercado regulado entrou em operação efetiva apenas em janeiro de 2025 — mais de seis anos após a legalização. Essa lacuna deu fôlego à expansão de operadores sem supervisão do Estado.
Regulação versus proibição
No ambiente regulado, as autoridades exigem identificação dos usuários, monitoramento de transações e a adoção de ferramentas de jogo responsável, além de poderem fiscalizar e sancionar as empresas. No mercado clandestino, nenhuma dessas salvaguardas existe. Os economistas da LCA ressaltam que o fim da oferta legal não elimina o desejo de apostar: parte dos consumidores pode recuar, mas uma parcela significativa — incluindo pessoas com dificuldade de controlar o próprio comportamento — tende a migrar para sites irregulares. A proibição parcial, restrita aos jogos on-line ou aos cassinos virtuais, tampouco resolveria o problema, pois quem busca uma modalidade específica não necessariamente a substituirá por outra dentro do mercado legal.
Há ainda o risco de insegurança jurídica. Legalizar, regulamentar, exigir investimentos das operadoras e, menos de dois anos após o início da operação regulada, cogitar uma proibição envia um sinal negativo ao mercado e compromete contratos, empregos e patrocínios esportivos vinculados às empresas licenciadas. As clandestinas, por sua vez, passariam a ser as únicas a oferecer uma gama completa de serviços, ampliando sua vantagem competitiva frente às autorizadas. O texto cita ainda uma portaria recente do Ministério da Fazenda voltada ao bloqueio de contas e transações ligadas à exploração irregular como exemplo do caminho alternativo: fortalecer os instrumentos de enforcement contra o mercado ilegal, em vez de desmantelar o legal. Para os autores, proteger as famílias exige que o Estado amplie sua capacidade de alcançar os ambientes em que o jogo ocorre — e uma proibição que engorde a clandestinidade tornaria essa tarefa ainda mais difícil.
O que isso muda na regulação
- A proibição de apostas reguladas pode deslocar apostadores para plataformas clandestinas, onde não há identificação de usuários, monitoramento de transações ou mecanismos de proteção, ampliando a vulnerabilidade de quem já tem dificuldade para interromper o jogo.
- Encerrar a oferta legal menos de dois anos após o início da operação regulada intensifica a insegurança jurídica, desestimula investimentos privados e enfraquece operadoras autorizadas em relação aos ilegais, que se tornariam as únicas a oferecer uma gama completa de serviços.
Entenda os termos
- Medida Provisória (MP)
- Ato normativo de força de lei editado pelo Presidente da República em caso de relevância e urgência, com vigência imediata mas sujeito à aprovação do Congresso Nacional.
- Apostas de quota fixa
- Modalidade de aposta em que o retorno é determinado no momento da colocação da aposta, independentemente de variações posteriores nas probabilidades ou mercado.
- Marco regulatório
- Conjunto de normas e regras que definem como uma atividade econômica deve ser exercida, estabelecendo direitos, deveres e mecanismos de fiscalização.
- Jogo responsável
- Conjunto de medidas e mecanismos implementados por operadoras para prevenir e mitigar riscos de dependência e prejuízos excessivos dos apostadores.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



