Pesquisa aponta que consolidação do mercado de apostas no Brasil ainda não equivale à estabilidade
Levantamento da SBC Insights com 56 executivos do setor revela que tributação imprevisível, restrições à publicidade e avanço do mercado ilegal travam o amadurecimento do ambiente regulado.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A regulamentação federal das apostas esportivas, que entrou em vigor em janeiro de 2025, trouxe maior concretude ao mercado — informações sobre arrecadação, comportamento dos usuários e funcionamento das operadoras passaram a circular com mais consistência. Mas o primeiro ano do regime licenciado também foi marcado por turbulências: disputas envolvendo loterias estaduais, cobranças de tributos sobre períodos anteriores à regulamentação, apostas realizadas por beneficiários do Bolsa Família e do BPC e uma pauta agitada no Congresso Nacional, com destaque para casos de suspeita de manipulação de resultados. É esse o pano de fundo da segunda parte da análise da pesquisa A Voz do Mercado, produzida pela SBC Insights com 56 executivos do setor.
Tributação e previsibilidade
A principal conclusão do levantamento não é que o setor está em retração, mas que o otimismo inicial cedeu lugar a uma postura mais calculada. A tributação figura entre as maiores fontes de insegurança. O ponto central identificado pela pesquisa não é apenas o valor das alíquotas incidentes sobre o Gross Gaming Revenue (GGR), a receita bruta de jogos, mas a percepção de que essas alíquotas podem voltar ao debate sempre que o governo buscar novas fontes de arrecadação. Para os entrevistados, elevações sucessivas comprometem a capacidade de reinvestimento das operadoras em tecnologia, contratação e ferramentas de jogo responsável. Há ainda o risco de distorção competitiva: enquanto plataformas autorizadas arcam com licenças, tributos e exigências de compliance, os operadores ilegais continuam alcançando consumidores brasileiros sem nenhuma dessas obrigações.
Publicidade e mercado ilegal
As restrições à comunicação comercial formam outro nó do debate. A pesquisa foi conduzida antes de o governo impor novos limites à publicidade de apostas em julho, medida adotada após excessos observados durante a Copa do Mundo de 2026. Ainda assim, o diagnóstico do levantamento permanece relevante: limitar a publicidade do mercado regulado sem reduzir proporcionalmente a exposição de plataformas clandestinas pode dificultar que os apostadores identifiquem quais operadoras estão autorizadas a funcionar no país. A pesquisa registrou que os operadores licenciados não criticaram necessariamente as novas normas impostas pelo Ministério da Fazenda, mas cobraram ação mais efetiva contra o mercado ilegal — tema que o governo vem priorizando nos meses recentes.
O horizonte de 2026 e além
O crescimento do setor continua sustentado por fatores estruturais: tamanho da população, interesse por esportes, digitalização dos meios de pagamento e profissionalização do ecossistema. Mas as empresas passaram a avaliar essas oportunidades com mais planejamento e atenção às decisões tomadas em Brasília. Esse olhar cauteloso deve se intensificar em 2026, ano de eleições para presidente, governadores, deputados e senadores, quando mudanças na composição do Congresso e no Executivo poderão reabrir debates sobre tributação, publicidade, proteção ao consumidor e competências lotéricas. A conclusão central da A Voz do Mercado é que há disposição clara para investir no Brasil, mas ela é condicionada: o mercado quer expandir, porém exige mais clareza regulatória antes de ampliar seus compromissos. Para os executivos ouvidos, o que se espera não é ausência de mudanças, mas decisões técnicas e tempo suficiente para adaptação.
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