Mercado ilegal de apostas pode movimentar até R$ 43 bilhões por ano, aponta estudo
Levantamento da LCA Consultoria Econômica, encomendado pelo IBJR, estima que operadores não autorizados também deixam de recolher até R$ 12 bilhões em tributos anualmente.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O segmento clandestino de apostas no Brasil pode gerar receitas entre R$ 32,9 bilhões e R$ 43,3 bilhões ao ano. A estimativa consta da segunda parte do estudo "Fora do Radar 2.0 – Dimensionamento e combate do mercado ilegal de apostas", elaborado pela LCA Consultoria Econômica a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e divulgado nesta quinta-feira, 24. O levantamento aponta ainda que a atuação de operadores sem autorização representa uma perda fiscal potencial de R$ 9,1 bilhões a R$ 12 bilhões por ano em tributos não recolhidos — valor que não inclui a taxa de fiscalização sobre operadores nem o Imposto de Renda sobre ganhos dos apostadores.
A metodologia parte dos dados de arrecadação da Receita Federal: entre janeiro e julho de 2026, o governo federal arrecadou R$ 8,7 bilhões com apostas. Aplicando uma carga tributária efetiva estimada em 27,6%, a LCA chegou a um mercado legal de R$ 31,6 bilhões no período. Anualizados, esses números projetam uma receita bruta de jogos (GGR) de R$ 54,3 bilhões para o mercado regulado em 2026 — alta de 46,8% em relação ao ano anterior. Sobre esse universo, a consultoria aplicou a participação estimada do mercado ilegal — entre 38% e 44% do total — para chegar às faixas anualizadas de R$ 32,9 bilhões a R$ 43,3 bilhões movimentados por plataformas não autorizadas. Somados os dois segmentos, o GGR total do mercado brasileiro de apostas deve ficar entre R$ 87 bilhões e R$ 98 bilhões em 2026, segundo o estudo.
O documento complementa a primeira parte do "Fora do Radar 2.0", divulgada em agosto, que havia estimado a fatia ilegal em 38% a 44% do mercado de apostas de quota fixa — redução em relação à faixa de 41% a 51% calculada anteriormente em 2025. A novidade desta segunda etapa é traduzir essas participações em valores financeiros e fiscais concretos. A LCA alerta, ainda, que eventuais aumentos da carga tributária sobre o setor regulado podem ampliar o diferencial competitivo entre operadores autorizados e plataformas clandestinas, reduzindo a chamada "canalização" — ou seja, a migração de apostadores para o mercado legal — e, por consequência, a arrecadação potencial do governo. O estudo calcula que uma transferência de apenas cinco pontos percentuais do mercado ilegal para o legal poderia gerar entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão em receita tributária adicional por ano.
A divulgação ocorre em um contexto sensível: o estudo foi publicado em meio a noticiário dando conta de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estuda proibir apostas esportivas e cassinos online por meio de medida provisória. O levantamento também incorpora dados sobre o comportamento dos apostadores durante a Copa do Mundo de 2026. Pesquisa do Instituto Locomotiva citada pela LCA indica que 61% dos apostadores declararam intenção de apostar mais durante o torneio — sendo 26% "muito mais" e 35% "um pouco mais" do que em períodos anteriores. Para a consultoria, grandes eventos esportivos intensificam a disputa entre plataformas legais e ilegais, e o estudo defende maior monitoramento de publicidade, meios de pagamento e oferta de sites não autorizados durante e após competições de grande porte.
| Segmento | Receita/Valor (R$ bilhões) | Participação no mercado |
|---|---|---|
| Mercado regulado (GGR anualizado) | 54,3 | 56% a 62% |
| Mercado ilegal (anualizado) | 32,9 a 43,3 | 38% a 44% |
| Mercado total (regulado + ilegal) | 87,0 a 98,0 | 100% |
| Arrecadação potencial não recolhida (anual) | 9,1 a 12,0 | - |
| Potencial de arrecadação adicional (transferência de 5pp) | 1,2 a 1,3 | - |
O que isso diz sobre o mercado
- A existência de um mercado ilegal entre R$ 32,9 e R$ 43,3 bilhões em receitas anuais corresponde a uma perda de R$ 9,1 a R$ 12 bilhões em tributos não recolhidos ao Estado — volume equivalente a três meses de arrecadação do setor regulado.
- O estudo aponta que aumentar a carga tributária sobre operadores autorizados pode ter efeito contrário ao esperado, tornando as plataformas ilegais ainda mais competitivas e reduzindo a migração de apostadores para o mercado regulado.
- Eventos de grande porte como a Copa do Mundo tendem a ampliar a disputa entre operadores legais e ilegais, exigindo maior vigilância sobre publicidade e meios de pagamento clandestinos para manter a canalização.
Entenda os termos
- GGR (Gross Gaming Revenue)
- Receita bruta de jogos, calculada como a diferença entre apostas recebidas e prêmios pagos aos apostadores, antes de custos operacionais e impostos.
- Carga tributária efetiva
- Percentual total de tributos (federais, estaduais e municipais) incidentes sobre a receita de apostas; no caso, 27,6% sobre o GGR do setor regulado.
- Operadores autorizados
- Empresas de apostas que possuem credenciamento da SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) e operam conforme a regulamentação brasileira, recolhendo tributos e cumprindo normas de proteção ao apostador.
- Canalização
- Fluxo de apostadores do mercado ilegal para operadores legais; quanto maior a canalização, maior a arrecadação tributária sobre o setor.
A apuração inicial deste fato é de SBC Notícias Brasil. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



