Do crescimento à credibilidade: como o iGaming redefine seus critérios de sucesso
Para Thiago Garrides, CEO da Cactus Gaming, o setor deixou de competir apenas por usuários e passa a disputar algo mais difícil de conquistar: a confiança de consumidores, reguladores e parceiros.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Durante anos, o iGaming mediu seu progresso pela velocidade com que atraía novos usuários, expandia operações e aumentava receitas. Essa lógica foi essencial para transformar o setor em um dos mais dinâmicos da economia digital. Mas, segundo Thiago Garrides, CEO da Cactus Gaming, os sinais do mercado indicam que essa fase ficou para trás. Em análise publicada a partir de sua participação no SBC Summit Americas — um dos principais encontros da indústria nas Américas —, ele sustenta que a pergunta central do setor mudou: a questão agora não é mais quem cresce mais rápido, mas quem consegue construir relações de confiança duradouras com usuários, reguladores, parceiros e a sociedade.
Nos debates do evento, temas como conformidade regulatória, proteção ao usuário, segurança financeira, governança de dados, prevenção a fraudes e inteligência artificial dominaram as discussões. Para Garrides, essa mudança de pauta é natural: à medida que o setor amadurece e ganha relevância econômica, cresce também a responsabilidade das empresas que o integram. Compliance, que por muito tempo ocupou posição de suporte nas organizações, passou a ter papel estratégico. O mesmo vale para mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, validação de identidade e monitoramento transacional — obrigações que deixaram de ser vistas apenas como exigências regulatórias e passaram a integrar o núcleo da competitividade.
Brasil no centro das atenções globais
A América Latina ilustra bem essa transformação, com mercados em estágios distintos de desenvolvimento. Nesse cenário, o Brasil ocupa posição singular: reúne simultaneamente uma base ampla de usuários, um sistema de pagamentos digitais avançado — com o Pix como referência global — e um ambiente regulado ainda em consolidação. O país iniciou a regulamentação formal das apostas esportivas de quota fixa a partir da Lei 14.790/2023, com a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, conduzindo o processo de licenciamento e supervisão dos operadores. Esse conjunto de fatores colocou o Brasil no centro das atenções da indústria global. Garrides, porém, alerta que o tamanho da oportunidade não garante sucesso automático: "Os vencedores deste novo ciclo não serão definidos apenas por escala. Eles serão definidos pela capacidade de operar com segurança, governança, adaptação regulatória e excelência operacional."
A inteligência artificial aparece nesse contexto como peça-chave. Na avaliação de Garrides, a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de eficiência para assumir funções essenciais à sustentabilidade das operações. Sistemas avançados são capazes de analisar grandes volumes de dados em tempo real, identificar comportamentos atípicos e detectar movimentações suspeitas, tornando as plataformas mais seguras tanto para empresas quanto para consumidores. O mesmo raciocínio se aplica ao jogo responsável: ferramentas de identificação precoce de comportamento de risco, mecanismos de autocontrole e limites de uso deixaram de ser apenas exigências regulatórias para se tornarem condição fundamental de um ambiente equilibrado.
O executivo destaca ainda a evolução do uso de dados no setor. O business intelligence, que historicamente servia para explicar acontecimentos passados, caminha para modelos preditivos capazes de antecipar riscos e apoiar decisões em tempo real. Quanto mais rápida a identificação de desvios, maior a capacidade de resposta das empresas. E é justamente aí, segundo Garrides, que reside a principal transformação em curso: a experiência do usuário, antes medida por facilidade de cadastro ou velocidade de pagamento, passa a ser avaliada também por critérios como proteção de dados, transparência e responsabilidade. Para o CEO da Cactus Gaming, a próxima década do iGaming será definida menos por indicadores de expansão e mais pela capacidade das empresas de construir credibilidade de forma consistente e duradoura.
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