Brasil e Ontario: o que o modelo canadense de iGaming ensina ao mercado nacional
A experiência regulatória da província canadense serve de referência para avaliar avanços e desafios do mercado brasileiro de apostas digitais, que movimentou R$ 17,4 bilhões em GGR no primeiro semestre de 2025.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A regulamentação das apostas de quota fixa e dos jogos online no Brasil abriu espaço para comparações com mercados mais maduros no exterior. Um dos exemplos frequentemente citados por analistas do setor é o de Ontario, província canadense que estruturou seu modelo de iGaming regulado a partir de abril de 2022. O paralelo ganhou ainda mais relevância com o crescimento acelerado das apostas digitais no país: em agosto de 2024, o Banco Central identificou 56 empresas que receberam, juntas, R$ 20,8 bilhões em transferências via Pix. O órgão estimou que cerca de 15% desse valor foi retido pelas plataformas como resultado das operações.
O modelo de Ontario: duas instituições, um mercado regulado
Em Ontario, o iGaming regulado funciona com base em uma divisão clara de responsabilidades entre dois organismos. A Alcohol and Gaming Commission of Ontario (AGCO) cuida da regulação e da fiscalização, enquanto o iGaming Ontario administra a relação comercial com os operadores privados autorizados. Ao encerrar o ano fiscal de 2024-25, o mercado contava com 50 operadores ativos, mais de 2,6 milhões de contas de jogadores e registrou C$ 82,7 bilhões em apostas e C$ 2,9 bilhões em receita bruta de jogos. A estrutura garante que consumidores possam verificar se determinada plataforma integra o ambiente regulado — o que representa uma proteção concreta em um mercado com grande volume de operadores.
O avanço brasileiro: licenças, domínios e fiscalização financeira
No Brasil, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) é o órgão responsável pela autorização e supervisão das operadoras. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas licenciadas podem atuar legalmente no país, e os sites autorizados são identificados pela extensão ".bet.br". Cada outorga permite até três marcas, tem validade de cinco anos e custa R$ 30 milhões. Para monitorar as operações, a SPA utiliza o Sigap — Sistema de Gestão de Apostas — que centraliza dados das plataformas autorizadas. No primeiro semestre de 2025, o sistema registrou 17,7 milhões de CPFs únicos realizando apostas de quota fixa, com GGR de R$ 17,4 bilhões e gasto médio de aproximadamente R$ 164 por mês por apostador ativo. No mesmo período, mais de 15 mil sites ilegais haviam sido bloqueados, enquanto 78 empresas autorizadas eram monitoradas.
Proteção ao jogador: publicidade, vulneráveis e bloqueios financeiros
Tanto Ontario quanto o Brasil adotaram restrições à publicidade e mecanismos de proteção a grupos vulneráveis. Na província canadense, a AGCO proibiu a divulgação pública ampla de bônus e, desde 28 de fevereiro de 2024, vedou o uso de atletas com apelo a menores em campanhas, exceto para promoção do jogo responsável. No Brasil, estão proibidos bônus de entrada, crédito para apostas e o uso de cartão de crédito para essa finalidade. Um ponto sensível no mercado nacional foi a identificação, pelo Banco Central, de que 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões a casas de apostas via Pix em agosto de 2024. Em resposta, o governo implementou o módulo de impedidos do Sigap, desenvolvido pela SPA em parceria com o Serpro, que passou a operar em outubro de 2025. Até agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que a ferramenta havia impedido o acesso de mais de 3 milhões de pessoas ao mercado de apostas, incluindo beneficiários do BPC e participantes de programas de renegociação de dívidas e financiamento estudantil. No sistema financeiro, o Banco Central estabeleceu, em 2026, regras para bloqueio de contas e impedimento de transações ligadas a operadores sem autorização.
Maturidade regulatória vai além do volume de apostas
A comparação entre os dois mercados não implica que o modelo de Ontario possa ser replicado diretamente no Brasil — as estruturas federativas, as competências dos órgãos públicos e as características dos mercados locais são distintas. O que a experiência canadense evidencia, no entanto, é que a solidez de um mercado regulado não se mede apenas pelo número de operadores ativos ou pelo volume financeiro movimentado. A publicação periódica de dados, a fiscalização consistente e os mecanismos de proteção ao consumidor são igualmente determinantes para a qualidade da regulação. Para o Brasil, o desafio da próxima etapa será transformar a infraestrutura já construída — licenças, Sigap, bloqueios e impedimentos — em políticas públicas efetivas e em informação acessível ao cidadão.
| Indicador | Ontario | Brasil |
|---|---|---|
| Operadores ativos | 50 | 78 autorizadas (monitoradas) |
| Volume de apostas | C$ 82,7 bilhões | não informado |
| Receita bruta de jogos | C$ 2,9 bilhões | R$ 17,4 bilhões (GGR) |
| Contas de jogadores ativas | 2,6 milhões | 17,7 milhões (CPFs únicos) |
| Gasto médio mensal por apostador | não informado | R$ 164 |
| Sites ilegais bloqueados | não informado | 15 mil+ |
O que isso muda na regulação
- O material compara duas estruturas regulatórias maduras (Ontario e Brasil) para extrair lições sobre transparência de operadores, monitoramento de dados e proteção ao jogador, sem indicar mudanças imediatas na regulação brasileira.
- A análise reforça que a regulação brasileira já incorpora elementos similares aos de Ontario (autorização prévia, domínio .bet.br, SIGAP, restrições de publicidade), mas o desafio agora é garantir fiscalização consistente e acessibilidade de informações ao público.
- O bloqueio de 15 mil sites ilegais e o módulo de impedidos que evitou acesso de 3 milhões de pessoas demonstram que a infraestrutura regulatória brasileira está em implementação operacional, com foco em vulnerabilidade financeira de beneficiários de programas sociais.
Entenda os termos
- SIGAP
- Sistema de Gestão de Apostas, plataforma brasileira que centraliza o recebimento e processamento de informações operacionais das empresas autorizadas pela SPA/MF, permitindo monitoramento regulatório do mercado.
- GGR
- Gross Gaming Revenue (Receita Bruta de Jogos): diferença entre o valor total de apostas realizadas e os prêmios pagos aos jogadores, indicador-chave do desempenho financeiro de um mercado de apostas.
- iGaming
- Apostas e jogos de azar praticados exclusivamente online, incluindo apostas de quota fixa, cassinos online e demais produtos distribuídos por plataformas digitais.
- Módulo de impedidos
- Funcionalidade do SIGAP que verifica restrições de acesso para pessoas impedidas de apostar, incluindo beneficiários de programas sociais (Bolsa Família, BPC) e outras categorias protegidas.
A apuração inicial deste fato é de ConexãoBet. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



