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Jogo Responsável

SUS oferece 100 mil atendimentos/mês a apostadores, mas só 291 responderam sobre origem das apostas

Levantamento via Lei de Acesso à Informação revela que, entre as poucas respostas coletadas pelo Ministério da Saúde, 37,5% dos apostadores que buscaram ajuda pelo SUS usavam plataformas ilegais — e o Estado arca com o custo do tratamento em todos os casos.

SUS oferece 100 mil atendimentos/mês a apostadores, mas só 291 responderam sobre origem das apostas

Imagem ilustrativa gerada por IA

O Ministério da Saúde ampliou a capacidade do teleatendimento do SUS para pessoas com problemas relacionados a apostas esportivas e jogos online para até 100 mil atendimentos mensais — mas os dados coletados sobre o perfil desses usuários ainda são escassos. Um pedido feito ao ministério via Plataforma Fala.BR, com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), revelou que, desde que passou a ser feita a pergunta sobre a legalidade das plataformas usadas pelos apostadores, apenas 291 pessoas responderam ao questionamento. O Ministério da Saúde não informou a qual período esses dados se referem.

Das 291 respostas computadas, 109 (37,5%) declararam apostar em plataformas não autorizadas pelo Ministério da Fazenda, ou seja, ilegais; 99 (34%) afirmaram usar plataformas reguladas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA-MF); e 83 (28,5%) não souberam responder. A pergunta incluída no protocolo de atendimento foi: "As plataformas que você aposta são autorizadas pelo Ministério da Fazenda?". O ministério detalhou na resposta oficial que a coleta visava mapear o perfil dos usuários que buscaram atendimento.

O serviço de teleatendimento em saúde mental voltado a apostadores foi lançado em março, inicialmente com oferta de 600 atendimentos mensais pelo aplicativo Meu SUS Digital, em parceria com o Ministério da Fazenda e a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS). Diante da alta procura, a capacidade foi expandida por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, em contrato de R$ 2.942.538,05. No primeiro semestre de 2026, R$ 24,19 milhões foram destinados ao programa Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, do Ministério da Saúde. O atendimento é remoto, sigiloso, conta com acompanhamento profissional, também atende familiares e funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

O dado chama atenção por uma razão estrutural: o Estado brasileiro financia o tratamento de saúde mental de apostadores tanto do mercado regulado quanto do mercado ilegal, sem qualquer mecanismo para recuperar, junto às plataformas não autorizadas, os recursos públicos aplicados nesses cuidados. Enquanto as casas de apostas licenciadas estão sujeitas à fiscalização, à tributação e às regras de publicidade da SPA-MF, os sites ilegais operam fora desse alcance — mas seus usuários recorrem ao SUS da mesma forma.

Autoexclusão: 1,2 milhão de pedidos registrados

Também via LAI, foram solicitadas à SPA-MF informações sobre a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, disponibilizada em dezembro de 2025. A secretaria confirmou que, até o momento da resposta, mais de 1,2 milhão de pedidos de autobloqueio haviam sido registrados. O motivo mais frequente foi "perda de controle sobre o jogo – saúde mental", presente em 36,09% dos casos. O segundo motivo mais citado, com 20,97% dos pedidos, foi "prevenir que meus dados sejam utilizados por plataformas de apostas" — uma preocupação ligada a privacidade e exposição à publicidade, não necessariamente a quadros de dependência. Em relação à duração, 66,95% das autoexclusões foram solicitadas por prazo indeterminado, e 21,36% por um ano. A SPA-MF não respondeu especificamente à pergunta sobre onde os apostadores autoexcluídos se endividaram.

O contraste entre a capacidade instalada de 100 mil atendimentos mensais e a amostra de apenas 291 respostas úteis sobre a origem das apostas — sem periodicidade definida — limita qualquer generalização sobre o peso do mercado ilegal no sistema público de saúde. Ainda assim, o cenário reforça uma tensão que tende a acompanhar a consolidação do mercado regulado no Brasil: os custos sociais do jogo problemático recaem sobre o Estado independentemente de a plataforma de origem ser autorizada ou não.

Análise BetNotícias
Perfil de respondentes sobre origem das apostas no teleatendimento SUS
PlataformaRespostasPercentual
Não autorizadas (ilegais)10937,5%
Autorizadas (SPA/MF)9934%
Não souberam responder8328,5%
Total291100%

O que isso muda na regulação

  • O SUS financia o tratamento de apostadores do mercado ilegal sem recuperar custos — mais de um terço dos 291 que responderam (37,5%) apostam em plataformas não autorizadas, sobre as quais o Estado não tem fiscalização, arrecadação ou controle de publicidade.
  • A capacidade contratada de 100 mil atendimentos mensais contrasta dramaticamente com apenas 291 respondentes que informaram a origem das apostas, sem periodicidade definida, o que compromete a medição do peso real do mercado ilegal no sistema público de saúde.

Entenda os termos

SPA-MF (Secretaria de Prêmios e Apostas)
Órgão do Ministério da Fazenda responsável pela autorização, regulação e fiscalização das plataformas de apostas esportivas e jogos online legalizadas no Brasil.
Plataforma Centralizada de Autoexclusão
Sistema que permite ao apostador solicitar o bloqueio automático de seu acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas de uma única vez, ferramenta de proteção ao jogador.
Teleatendimento em saúde mental
Atendimento remoto, sigiloso e profissional oferecido pelo SUS para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, incluindo orientação a familiares e encaminhamento para a Rede de Atenção Psicossocial.
RAPS (Rede de Atenção Psicossocial)
Conjunto de serviços e ações do SUS para atender pessoas com demandas de saúde mental, incluindo tratamento de transtornos relacionados a dependências e comportamentos compulsivos.
Fonte original
Com informações de BNLData →

A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.

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