Psicólogo defende que MEC inclua ludopatia nos currículos e nos vestibulares
Para especialista da EBAC, educação sobre riscos do jogo compulsivo é mais eficaz do que a repressão — e dados sobre apostas entre menores reforçam a urgência do debate.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O debate sobre os impactos da regulamentação das apostas esportivas no Brasil ainda não chegou onde mais importa: as salas de aula. Essa é a avaliação de Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo), para quem o Ministério da Educação deveria assumir um papel ativo na promoção do tema, inclusive incentivando sua abordagem em vestibulares como o ENEM. Na visão do especialista, tratar a ludopatia como conteúdo educacional não significa estimular as apostas, mas sim oferecer à população jovem a informação necessária para que a liberdade individual seja exercida com consciência.
Menores de idade e apostas ilegais: o que os dados revelam
O argumento ganha peso diante de pesquisa da Ipsos encomendada pela plataforma de verificação de identidade Unico, que ouviu 1.200 jovens brasileiros em 2025. Os resultados são preocupantes: 11% dos entrevistados afirmaram ter apostado em plataformas ilegais — prática impossível em sites regulamentados, dado o rigoroso sistema de biometria e identificação digital exigido pelo governo. O maior índice de participação em apostas no último ano, 20%, foi registrado entre jovens de 17 anos, faixa etária concentrada no período do ENEM e pré-vestibular. Entre meninas de 14 e 15 anos, 14% relataram acesso a apostas online, e mesmo entre crianças de 10 a 13 anos, 4% disseram ter apostado no ano anterior.
Os dados sobre dependência tornam o cenário ainda mais grave. O LENAD III, levantamento nacional sobre uso de álcool e drogas, identificou que 55% dos menores de 18 anos que apostavam já apresentavam comportamento de dependência — índice superior ao registrado entre apostadores adultos, que ficou em 39%. Costa destaca que a curiosidade é o principal fator de entrada no universo das apostas entre os jovens, citada por 41% dos entrevistados, seguida pela expectativa de ganho fácil (34%). A influência de criadores de conteúdo digital aparece em terceiro lugar, com 9%, embora a exposição frequente a publicidades de plataformas ilegais contribua para normalizar o comportamento entre públicos cada vez mais novos.
Educação como ferramenta de proteção
Para o psicólogo, a resposta do Brasil ao problema tem privilegiado a repressão e a proibição em detrimento de uma abordagem baseada em informação e saúde mental — caminho que, segundo ele, tem eficácia comprovadamente limitada. A proposta é que o MEC estimule o tema nas escolas e em processos seletivos sem interferir na autonomia das bancas examinadoras. Uma questão de redação ou de ciências humanas, por exemplo, poderia levar estudantes a refletir sobre os limites entre entretenimento, pressão econômica, liberdade individual e proteção de públicos vulneráveis. "Educar sobre o jogo não significa estimular o seu consumo ou negar a complexidade do debate sobre direitos e liberdade individuais. Significa oferecer informação para que essa liberdade possa existir com consciência", afirma Costa. O raciocínio é análogo ao que já orienta políticas de proteção de adolescentes em relação ao álcool e outras substâncias: a discussão precede — e é mais eficaz do que — a simples proibição.
O que isso muda na regulação
- Jovens menores de 18 anos que apostam apresentam taxa de dependência de 55%, contra 39% entre adultos, indicando vulnerabilidade crítica que escapa ao controle atual das políticas de jogo responsável.
- A inclusão de ludopatia no currículo e vestibulares buscaria criar ambiente de liberdade informada e saúde mental, substituindo apenas repressão por educação e psicoeducação.
- Dados de pesquisa Ipsos revelam que 11% dos jovens apostaram em plataformas ilegais e apenas 4% das crianças entre 10 e 13 anos apostar, concentrando-se em faixas etárias de maior vulnerabilidade biopsicossocial.
Entenda os termos
- Ludopatia
- Transtorno psicológico caracterizado por dependência do jogo de azar, com perda de controle sobre frequência e valores apostados, gerando danos à saúde mental e financeira.
- Bets ilegais
- Plataformas de apostas online que operam sem autorização da SPA e não cumprem os rígidos controles de biometria e identificação digital exigidos pelo governo.
- Plataforma regulamentada (.BET.BR)
- Site de apostas autorizado e fiscalizado pelo governo brasileiro, identificável pelo domínio terminado em .BET.BR, com obrigação de aplicar controles de biometria e identificação digital.
- LENAD III
- Levantamento Nacional sobre Uso de Álcool e Drogas, pesquisa que coleta dados sobre comportamentos de dependência relacionados a substâncias psicoativas e jogos de azar.
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



