Kalshi busca reverter bloqueio no Brasil e chama restrição de "gap educacional"
Cofundadora brasileira da plataforma americana de mercados preditivos diz que Ministério da Fazenda não compreendeu o modelo de negócios da empresa e promete diálogo com autoridades.
Imagem ilustrativa gerada por IA
A Kalshi, plataforma americana de mercados preditivos regulada nos Estados Unidos, está em busca de reverter o bloqueio imposto pelo Ministério da Fazenda brasileiro no fim de abril. A cofundadora da empresa, a brasileira Luana Lopes Lara, de 29 anos, afirmou que a proibição decorreu de uma incompreensão sobre o funcionamento do negócio. "Vamos tentar explicar o que a gente faz, porque foi mais um gap educacional do que qualquer outra coisa", disse ela em entrevista à Folha de S.Paulo, durante a abertura do Web Summit no Rio de Janeiro. Segundo a executiva, a empresa já iniciou conversas com autoridades brasileiras após a restrição regulatória.
Por que o governo bloqueou a plataforma
O Ministério da Fazenda enquadrou a Kalshi e outras plataformas de mercados preditivos como operadoras de prognósticos esportivos que não atendem às exigências previstas para casas de apostas regulamentadas no Brasil. Entre os requisitos não cumpridos estão o pagamento de licença de R$ 30 milhões e o cumprimento de regras de prevenção à lavagem de dinheiro — obrigações previstas no marco regulatório de apostas esportivas de quota fixa, cuja implementação foi conduzida pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Além disso, o Conselho Monetário Nacional restringiu a liquidação de contratos futuros a eventos atrelados a indicadores macroeconômicos, o que inviabiliza a operação de mercados sobre eleições, reality shows, resultados esportivos e outros eventos que compõem o portfólio da Kalshi.
O modelo da Kalshi e a diferença em relação às bets tradicionais
Luana Lopes Lara contestou a classificação do governo e explicou que o modelo da Kalshi difere estruturalmente de uma casa de apostas convencional. "A Kalshi não ganha dinheiro quando as pessoas perdem — essa é uma diferença muito grande", afirmou. A empresa funciona como uma bolsa: lucra ao cobrar uma taxa de corretagem de aproximadamente 1% sobre o valor total movimentado quando um usuário compra um contrato e outro o vende na contraparte. O mecanismo é o mesmo utilizado por bolsas de valores e mercados de futuros tradicionais. "Se as pessoas perderem tudo, é ruim para a gente. Precisamos que as pessoas comprem mais", detalhou a cofundadora. A executiva acrescentou que cerca de 70% dos usuários da plataforma a acessam apenas como fonte de informação sobre tendências futuras, sem realizar operações financeiras.
Trajetória nos EUA e perspectivas para o Brasil
Nos Estados Unidos, a Kalshi opera desde 2019 e enfrentou anos de litígio regulatório até obter, em 2024, uma vitória judicial que lhe permitiu comercializar contratos sobre as eleições presidenciais americanas — pleito vencido por Donald Trump. A decisão impulsionou a avaliação da empresa a US$ 22 bilhões e fez de Luana a mulher mais jovem a alcançar o primeiro US$ 1 bilhão em patrimônio. Para o mercado brasileiro, a cofundadora disse acreditar que o processo será mais curto do que os quatro anos necessários nos EUA. "Vai ser mais rápido do que foi nos Estados Unidos, onde trabalhamos desde 2019", afirmou. Questionada sobre a possibilidade de acionar a Justiça brasileira nos moldes do que ocorreu no exterior, Luana evitou confirmar: "A gente quer trabalhar de uma forma construtiva." Sobre a abertura de operação local, foi direta: "Sim, os planos continuam." Não há, contudo, prazos definidos para a contestação formal ao governo nem para o início das atividades no país.
Segurança, ética e ambição de crescimento
A executiva também defendeu os mecanismos de controle da plataforma. Por operar sob regulação nos EUA, a Kalshi monitora tentativas de manipulação e uso de informação privilegiada, reportando casos suspeitos ao Departamento de Justiça americano (DoJ). "Por sermos regulados, a prática de manipulação ou 'insider trading' constitui crime federal", disse Luana, diferenciando a empresa da Polymarket, plataforma não regulada que esteve envolvida em episódios de suposto uso de informação privilegiada por agentes públicos. A Kalshi também bloqueia atletas profissionais de transacionar em mercados esportivos correlatos e impede que filiados a partidos políticos operem em contratos eleitorais específicos. A empresa veda ainda a criação de mercados ligados a guerras, assassinatos ou atos terroristas. Sobre o potencial de expansão, Luana foi ambiciosa: "Estamos pensando em como a gente chegará a uma empresa entre US$ 100 bilhões e US$ 1 trilhão. A gente quer fazer essa empresa ficar o maior possível."
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