Cartão de crédito, não apostas, é o principal motor do endividamento, aponta análise
Dados do Banco Central e de estudos setoriais mostram que o endividamento das famílias brasileiras tem raízes estruturais ligadas ao crédito rotativo e aos juros elevados, não às plataformas de apostas.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O endividamento das famílias brasileiras não pode ser atribuído às apostas de quota fixa como causa principal. É o que revelam dados de diferentes fontes analisados pelo JOTA Info, que apontam um problema estrutural anterior à legalização do setor de bets no país, em janeiro de 2025, com raízes profundas no uso excessivo do cartão de crédito e nas taxas de juros persistentemente altas. Em entrevista concedida na terça-feira (24/8), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o avanço do endividamento ocorre mesmo diante de melhora nos indicadores de emprego e renda, e que os juros do cartão de crédito seguem como principal razão das dívidas das famílias.
Os números reforçam esse diagnóstico com clareza. Em novembro de 2022 — período em que as apostas reguladas ainda não operavam no Brasil —, 78,9% das famílias já estavam endividadas, com dívidas de cartão de crédito respondendo por 86,4% desse total. Em junho de 2024, o cenário praticamente não se alterou: 78,8% das famílias permaneciam endividadas, com a participação do cartão no mesmo patamar. Já em maio de 2026, segundo dados do Banco Central, a inadimplência no crédito livre para pessoas físicas chegou a 7,6%, com taxa média de juros de 62,8% ao ano nessa modalidade. O cartão de crédito rotativo mantinha participação de 84,7% no endividamento das famílias. O boletim da Comsefaz aponta que a combinação de dívidas acumuladas em anos anteriores, juros elevados e uso contínuo de linhas de crédito de alto custo explica a piora da inadimplência no início de 2026.
Um estudo da LCA calculou que o gasto líquido com apostas representa apenas 0,46% do consumo das famílias no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, concluindo que não há relação direta entre a legalização das bets e o endividamento dos brasileiros. Levantamento da Paag, com dados de 26 operadoras autorizadas — cerca de 30% do mercado regulado —, mostrou que 74% das transações no segundo trimestre de 2026 foram de até R$ 50, respondendo por 23% do valor total movimentado. No extremo oposto, apostas acima de R$ 1.000 representaram menos de 1% das operações, mas concentraram 20% do valor. Durante a Copa do Mundo de 2026, 6% dos adultos brasileiros apostaram em partidas do torneio; desses, 37% relataram saldo positivo, 15% disseram ter empatado e 48% afirmaram ter perdido dinheiro.
Um elemento que permanece fora do alcance regulatório é o mercado ilegal. Estimativas indicam que entre 38% e 44% das apostas no Brasil ocorrem em plataformas clandestinas, e muitos consumidores relatam dificuldade em distinguir um site autorizado de um ilegal. Essas plataformas não estão sujeitas às obrigações de fiscalização nem às regras de proteção ao apostador previstas na regulamentação. Vale lembrar que o setor foi regulamentado em 2025 e posteriormente proibido pela Medida Provisória nº 1.394, de setembro de 2026, que vedou novos depósitos a partir de 25 de setembro e prevê a extinção de todas as autorizações da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) até 25 de outubro de 2026.
O reconhecimento de que as apostas não são o fator determinante do endividamento não afasta a necessidade de políticas específicas para o setor. Para consumidores com comportamento de jogo problemático, perdas recorrentes podem agravar vulnerabilidades financeiras já existentes. A análise aponta que a resposta pública deve focar em identificar comportamentos de risco, fiscalizar a proibição do uso de crédito para apostas, aperfeiçoar limites de gasto e perda, reforçar mecanismos de autoexclusão e ampliar o acesso a tratamento especializado. Enfrentar o endividamento familiar, segundo o estudo, exige distinguir correlação de causalidade e atuar de forma simultânea sobre juros, custo do crédito, renda, inadimplência e comportamentos de aposta problemáticos.
| Período | % Famílias Endividadas | % de Cartão de Crédito nas Dívidas |
|---|---|---|
| Novembro de 2022 | 78,9% | 86,4% |
| Junho de 2024 | 78,8% | não informado |
| Maio de 2026 | não informado | 84,7% |
Por que isso importa
- O endividamento das famílias brasileiras é estrutural e anterior às apostas de quota fixa, sendo causado principalmente pelo cartão de crédito rotativo e por taxas de juros acima de 60% ao ano, não pelas apostas reguladas.
- Apostas representam apenas 0,46% do consumo familiar no PIB, e entre 38% e 44% das apostas ocorrem em plataformas ilegais não reguladas, o que coloca as bets reguladas numa posição marginal no fenômeno da inadimplência.
- Mesmo reconhecendo que apostas não são o fator determinante, políticas devem se concentrar em fiscalizar o uso de crédito para apostas, fortalecer autoexclusão e tratar comportamentos de jogo problemático, sem confundir a questão com a crise de endividamento geral.
Entenda os termos
- Crédito livre
- Modalidade de crédito oferecida pelas instituições financeiras sem imposição de limite de taxa de juros, diferenciando-se do crédito direcionado que tem regulação específica.
- Cartão de crédito rotativo
- Modalidade de crédito que permite ao consumidor deixar saldo devedor do cartão para o mês seguinte, incidindo juros elevados sobre a quantia.
- Inadimplência
- Situação em que o devedor deixa de pagar suas obrigações financeiras nos prazos estabelecidos.
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



