FactCheck: os R$ 38,8 bi de "custo social" das bets têm uma ressalva que ninguém publicou
Nota técnica do próprio dossiê do IEPS admite que não é possível provar causalidade entre apostas e os suicídios e depressões usados para chegar à cifra bilionária — detalhe que a cobertura jornalística ignorou.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O valor de R$ 38,8 bilhões circulou por dezenas de reportagens, foi citado em audiências no Congresso Nacional e passou a ser tratado como prova definitiva de que o Brasil paga um preço alto demais pelo mercado de apostas online. O número é atribuído ao "custo social" das bets, segundo estudo divulgado em 2 de dezembro de 2025 pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM) e a organização Umane. O que quase nenhum dos veículos que repercutiram a cifra mencionou está escondido no próprio documento: uma nota técnica, inserida no rodapé do gráfico que sustenta o cálculo, em que os próprios autores reconhecem que não é possível afirmar que os danos contabilizados foram causados pelas apostas.
A ressalva está grafada assim no dossiê: "São associados ao jogo, porque, dadas as evidências limitadas, não é possível afirmar que tais danos foram causados diretamente pelo jogo problemático." A distinção não é menor: na linguagem científica, "associado" e "causado" são conceitos distintos, e a diferença entre os dois separa uma hipótese de um fato estabelecido. Dos R$ 38,8 bilhões totais, R$ 30,6 bilhões derivam de danos à saúde — sendo R$ 17 bilhões atribuídos a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões a casos de depressão. São exatamente esses componentes que os autores qualificam como "associados", não causalmente comprovados.
Três camadas de extrapolação
A metodologia descrita pelo IEPS revela que os valores de custo por perfil de apostador foram retirados de um estudo de 2023 do Office for Health Improvement and Disparities (OHID), órgão do governo britânico. Esses valores em libras foram convertidos para reais por uma taxa de paridade de poder de compra de R$ 3,40 por libra e, em seguida, multiplicados pela proporção de brasileiros em situação de risco identificada pelo terceiro Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas (LENAD III) — uma pesquisa voltada ao consumo de substâncias, não concebida para medir o impacto causal de apostas sobre saúde mental. O resultado é, portanto, uma extrapolação em três etapas: dado britânico, convertido por câmbio estimado e aplicado a uma amostra brasileira por analogia. Em nenhum ponto do processo o Brasil mediu diretamente quantos suicídios ou diagnósticos de depressão decorrem de apostas. Os R$ 10,4 bilhões atribuídos à perda de qualidade de vida por depressão utilizam o conceito de QALY (anos de vida ajustados por qualidade), ferramenta legítima em economia da saúde, mas cujo resultado em reais depende de premissas — como o valor monetário atribuído a um ano de vida e a taxa de desconto aplicada — que o material de divulgação não detalhou e que, se alteradas, modificam o total final em bilhões.
Comparação entre grandezas de natureza diferente
O contraste mais repetido pela imprensa — o de que o custo social seria o triplo da arrecadação do setor — coloca lado a lado o valor estimado de R$ 38,8 bilhões com os R$ 6,8 bilhões arrecadados em impostos entre janeiro e setembro de 2025, conforme dados da Receita Federal. São grandezas de natureza distinta: uma é uma projeção estatística construída sobre hipóteses; a outra é um valor fiscal real e auditável. O próprio dossiê traz elementos verificáveis e relevantes, como o fato de que apenas 1% da arrecadação tributária das bets no Brasil tem destinação vinculada à área da Saúde, ante 50% no Reino Unido — dado que, por si só, sustenta um debate legítimo sobre a destinação dos recursos. O jogo problemático é um problema real que demanda políticas públicas de prevenção e tratamento; a questão levantada pelo fact-check não é a existência do problema, mas a precisão numérica com que ele foi apresentado ao público e aos legisladores, sem que a incerteza reconhecida pelos próprios pesquisadores acompanhasse a divulgação.
O que isso muda na regulação
- O número R$ 38,8 bilhões citado em dezenas de reportagens e audiências no Congresso baseia-se em dados britânicos convertidos e aplicados a uma proporção brasileira, não em medições diretas de danos causados por apostas no Brasil — os próprios autores admitem que a relação entre apostas e os danos (suicídios, depressão) é de associação, não causalidade.
- A maior parte da cifra (R$ 30,6 bi) vem de estimativas estatísticas que reúnem dados de natureza distinta — gastos reais de tratamento (R$ 3 bi) com projeções teóricas de qualidade de vida perdida (R$ 10,4 bi) — sob um rótulo comum de 'custo social', embaralhando dois tipos de informação incomparáveis.
- A comparação repetida pela mídia ('custo social é triplo da arrecadação') coloca uma hipótese estatística (R$ 38,8 bi) lado a lado com um valor fiscal verificável e auditável (R$ 6,8 bi arrecadados), criando a impressão de uma 'conta que não fecha' que é, na verdade, uma comparação entre naturezas de dado diferentes.
Entenda os termos
- QALY (Quality-Adjusted Life Year)
- Métrica de economia da saúde que converte a qualidade de vida perdida por doença em valor monetário, ajustando anos de vida esperados por um fator de qualidade.
- LENAD III (Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas)
- Pesquisa nacional sobre consumo de substâncias que foi usada para estimar a proporção de brasileiros com uso problemático de apostas.
- OHID (Office for Health Improvement and Disparities)
- Órgão do governo britânico que produziu em 2023 o estudo de referência sobre custos por perfil de apostador, usado como base de cálculo para a projeção brasileira.
- Paridade de poder de compra
- Taxa de conversão entre moedas que ajusta as diferenças de custo de vida entre países, usada para converter dados britânicos em reais (R$ 3,40/£ neste caso).
A apuração deste fato é de BNLData. O texto acima, os dados estruturados e a análise foram escritos com inteligência artificial a partir dessa publicação, sem revisão humana antes de ir ao ar. Como funciona. Para conferir o conteúdo na íntegra, acesse a publicação original.



