Campanha "Block no Tigrinho" é marcada por dados falsos e suspeitas de engajamento artificial
Movimento liderado por artistas contra casas de apostas enfrenta questionamentos após divulgação de informações incorretas sobre o setor e episódio envolvendo influenciador digital.
Foto: Israel Torres / Pexels
A campanha "Block no Tigrinho", liderada por artistas e cantores com o objetivo de pressionar pelo bloqueio das casas de apostas no Brasil, acumula controvérsias que colocam em xeque sua credibilidade. Na última sexta-feira (5), o portal BNLData revelou duas irregularidades em sequência: a primeira, a circulação de dados falsos, equivocados e exagerados sobre o mercado de apostas online atribuídos à iniciativa; a segunda, envolvendo o influenciador digital Fernando Santos, um dos rostos associados à campanha.
Santos havia publicado um vídeo no Instagram, com cenas de choro, afirmando ter recusado uma proposta de R$ 1 milhão de casas de apostas para fazer publicidade do setor. O episódio, que gerou mais de 4 mil comentários e ampla repercussão, foi coberto pelo BNLData em 29 de maio. Na ocasião, empresários e publicitários ouvidos pela reportagem já apontavam a inverossimilhança da oferta: segundo especialistas do setor, um influenciador com cerca de 950 mil seguidores e pouca expressão comercial dificilmente receberia uma proposta dessa magnitude. Dias após o vídeo viralizar, o próprio Santos comemorou publicamente a marca de 1 milhão de seguidores. "Quando comecei a gravar vídeos, tudo o que eu queria era que meu conteúdo fosse visto. Hoje, com 1 milhão de seguidores, percebo que o mais importante nunca foi ser visto. Foi poder fazer parte, mesmo que por alguns segundos, da vida de tantas pessoas. E isso vale mais do que qualquer número na tela", escreveu no post. Para fontes consultadas pelo BNLData, o influenciador, que se apresenta como "Ator que se diverte" e "O gay da reforma de baixo custo", pode ter utilizado as críticas ao mercado de bets para gerar engajamento e alavancar sua própria audiência.
Proibição x regulação: o debate de fundo
Por trás das inconsistências da campanha, há um debate mais amplo sobre os efeitos práticos de uma eventual proibição das apostas esportivas no Brasil. O país concluiu a estruturação do marco regulatório do setor em 2025, com a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda assumindo a fiscalização das operadoras licenciadas. O modelo adotado aposta na regulação como ferramenta de proteção ao consumidor — e não como incentivo ao jogo. Dentro desse arcabouço, as plataformas autorizadas são obrigadas a adotar mecanismos de jogo responsável, limites de depósito, identificação de jogadores em situação de risco e recolhimento de tributos.
A experiência internacional e doméstica com políticas proibitivas mostra que a demanda reprimida tende a migrar para mercados ilegais, onde não há qualquer proteção ao apostador, nenhuma transparência financeira e maior exposição a redes criminosas. Nesse sentido, opositores da regulamentação alertam que campanhas que pedem o simples bloqueio das bets legais, sem propor alternativas concretas, podem, na prática, favorecer a expansão do mercado clandestino. A autenticidade da campanha "Block no Tigrinho" e de seus participantes segue sendo questionada diante dos episódios revelados.
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