BiS Brasília 2026: setor debate harmonização de regras, lavagem de dinheiro e endividamento
Evento reuniu autoridades e especialistas para discutir regulação do mercado de apostas, combate a operações ilegais e o real impacto das bets no endividamento dos brasileiros.
Foto: Pavel Danilyuk / Pexels
O BiS Brasília 2026 abriu suas portas nesta terça-feira (2) com um chamado à unidade do setor de iGaming e apostas no Brasil. Os cofundadores do BiS SiGMA, Alessandro Valente e Carlos Cardama, convocaram o segmento a trabalhar de forma coesa, posição reforçada pelo embaixador de Malta, John Aquilina, que citou a experiência do país europeu como exemplo de como a coesão entre operadores e reguladores impulsionou o desenvolvimento do mercado local. O encontro reúne representantes do governo, da iniciativa privada e especialistas da indústria para debater o futuro do mercado regulado brasileiro.
SINAPO: harmonizar, não padronizar
O primeiro painel do evento foi dedicado ao Sistema Nacional de Apostas (SINAPO), fórum criado pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) com o objetivo de promover integração entre União, Estados e Distrito Federal na regulação e fiscalização do setor. Os participantes — entre eles a presidente da Loterj, Fabíola Esteves, o secretário nacional de Apostas Esportivas, Giovanni Rocco, e Waldir Marques, diretor de relações institucionais da Todos Querem Jogar (TQJ) — convergiram na ideia de que o SINAPO deve buscar a harmonização de regras, e não a padronização que poderia suprimir prerrogativas constitucionais de cada ente federativo. "O grande desafio é harmonizar e não padronizar. Temos de conseguir comunicar que o Brasil tem, sim, um mercado regulado", afirmou Fabíola Esteves. Waldir Marques alertou que a sobreposição de competências entre os entes "não é benéfica para ninguém e pode provocar desequilíbrios concorrenciais". O mediador do painel, Leonardo Benites, diretor de Comunicação da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), acrescentou que a atuação conjunta é também um instrumento de combate às bets ilegais: "As licenças estaduais não podem ser uma ferramenta de branqueamento de operações ilegais".
Giovanni Rocco aproveitou o painel para revisitar o histórico recente da regulação brasileira. Segundo ele, o mercado operou por cinco anos sem regras claras, e o atual governo, em um ano, avançou na construção de "uma das regulamentações mais modernas do mundo". O secretário defendeu a manutenção das apostas esportivas e dos jogos online, argumentando que propostas de extinção da atividade não resolveriam os problemas apontados. "O que a gente precisa é controle", disse, ressaltando a importância de divulgar quais operadores estão devidamente autorizados e de combater o mercado ilegal, sobretudo para proteger a integridade esportiva.
Combate à lavagem de dinheiro e cooperação internacional
O painel "Follow the Money" trouxe à tona os desafios do setor em relação à lavagem de dinheiro e à governança. Ricardo Saad, presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelou que o órgão está desenvolvendo um sistema de feedback para setores regulados, incluindo o mercado de apostas, que gerará um ranking de qualidade das comunicações de operações suspeitas enviadas pelas empresas. Para Saad, a simples notificação de transações não é suficiente: "Não basta comunicar uma transação. É preciso explicar por que a operação foi reportada como suspeita e qual o contexto". Ana Helena Pamplona, diretora jurídica da Abrajogo, defendeu que o próprio setor tome a iniciativa na padronização dessas comunicações: "Temos de nos organizar para a construção conjunta de critérios e modelos. Devemos fazer antes mesmo de sermos cobrados". Matheus Vidal, head of legal da Paag, completou destacando que a evolução no combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de resultados passa pela ampliação da cooperação internacional entre unidades de inteligência financeira.
Bets têm impacto pequeno no endividamento, apontam especialistas
Um dos painéis mais aguardados do dia tratou da relação entre apostas e endividamento dos brasileiros. A conclusão dos especialistas foi clara: as bets têm impacto pequeno na inadimplência, que tem como principais causas o acesso fácil ao crédito, os juros elevados e a falta de educação financeira. Victor Yuko Oda, head de produto da Serasa Experian, apresentou dados que ilustram o cenário: 75% da renda de pessoas que recebem até dois salários-mínimos já está comprometida com contas e dívidas, e cerca de 44% dos apostadores entrevistados em pesquisa da empresa afirmaram ter apostado com o objetivo de quitar dívidas preexistentes. "A junção de bancarização, digitalização e baixo letramento financeiro faz com que a gente se encontre hoje no ápice, no recorde de endividamento do brasileiro", avaliou. Rodrigo Marinho, diretor executivo do Instituto Livre Mercado, apontou o peso da carga tributária e do custo do crédito sobre as famílias: "O crédito é usado para pagar o crédito. Então você cria uma bola de neve".
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