58% dos brasileiros acreditam que bets elevam muito o risco de manipulação no futebol
Levantamento da More in Common com a Ipsos-Ipec ouviu 2 mil pessoas durante a Copa do Mundo e aponta desconfiança generalizada sobre a integridade do esporte.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Uma pesquisa inédita realizada durante a Copa do Mundo aponta que a desconfiança dos brasileiros em relação ao impacto das apostas esportivas sobre a integridade do futebol é ampla e atravessa diferentes perfis sociais. Conduzido pela More in Common em parceria com a Ipsos-Ipec entre os dias 4 e 8 de julho de 2026, o levantamento ouviu 2.000 pessoas com 16 anos ou mais em 130 municípios de todas as regiões do país, com margem de erro de 2 pontos percentuais. É a primeira pesquisa das duas organizações com foco específico no impacto esportivo das bets.
Temor de manipulação é majoritário
Ao todo, 72% dos entrevistados acreditam que as apostas esportivas aumentam o risco de manipulação de resultados no futebol. Desse grupo, 58% avaliam que esse risco sobe muito, enquanto 14% consideram que o aumento é moderado. Apenas 10% descartam qualquer relação entre as bets e possíveis esquemas de manipulação, e 18% não souberam ou preferiram não responder. O dado ganha contexto diante de casos de grande repercussão nos últimos anos: Bruno Henrique, do Flamengo, foi acusado de forçar um cartão numa partida contra o Santos em 2023; Lucas Paquetá, do West Ham, é investigado por suposta manipulação em jogos de 2022 e 2023; e Eduardo Bauermann, então no Santos, é alvo de investigação por alegado recebimento de dinheiro para forçar uma falta com cartão contra o Avaí, também em 2022. Já durante a Copa do Mundo em andamento, vídeos sem comprovação circularam nas redes sociais acusando Vinicius Junior de ter cedido o primeiro pênalti numa disputa contra a Noruega para beneficiar apostadores.
Maioria quer proibir patrocínio de bets nos clubes
Quando questionados sobre um dilema direto — se as bets deveriam ser permitidas por contribuírem financeiramente com os clubes ou proibidas por causarem danos a torcedores e famílias —, 68% dos entrevistados optaram pela proibição, contra apenas 19% favoráveis à permissão. O resultado é expressivo diante do peso econômico do setor: na temporada 2025, 18 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tinham casas de apostas como patrocinadoras máster, somando um investimento total de R$ 1,2 bilhão. Para a maioria dos brasileiros, no entanto, esse aporte financeiro não compensa o impacto social negativo. A rejeição ao patrocínio se mostrou consistente entre diferentes grupos religiosos e raciais, e o recorte político indicou que eleitores de Flávio Bolsonaro apresentaram maior propensão tanto a rejeitar o patrocínio quanto a acreditar no risco de manipulação, em comparação com eleitores de Lula.
Padrão demográfico e contexto do debate
A distribuição dos resultados por perfil demográfico revela que homens e pessoas com renda familiar acima de 5 salários mínimos tendem mais a enxergar risco de manipulação. Mulheres, idosos e pessoas com ensino fundamental incompleto ou completo concentram a maior parcela dos que não souberam ou não quiseram opinar. Brancos e negros registram níveis equivalentes de desconfiança. Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil, destacou o caráter transversal do levantamento: "Sucessivas pesquisas vêm mostrando que a maior parte dos brasileiros se preocupa com a maneira como o vício e o endividamento decorrente das apostas esportivas prejudicam as famílias." Ortellado ressaltou ainda a novidade do recorte: "A pesquisa More in Common/Ipsos-Ipec aborda pela primeira vez o problema do ponto de vista do impacto esportivo", e concluiu que "o consenso em torno do impacto negativo das bets varia pouco demograficamente". A More in Common é uma organização apartidária e sem fins lucrativos que estuda polarização política em sete países, com foco no fortalecimento da democracia e na promoção da coesão social.
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