Dados contradizem CEO da Yduqs, que culpou bets por queda em matrículas
Rossano Marques atribuiu às apostas esportivas a menor procura por cursos durante a Copa do Mundo de 2026, mas números do setor, da Receita Federal e o próprio release da companhia apontam para outra causa.
Imagem ilustrativa gerada por IA
O CEO da Yduqs, Rossano Marques, afirmou em teleconferência com analistas e investidores realizada na quinta-feira (14/8) que "as bets consomem a renda e atrapalham o ensino superior". A declaração, reproduzida pelo Valor Econômico, vincula diretamente a liberação de apostas online durante a Copa do Mundo de 2026 — disputada entre 11 de junho e 19 de julho — à retração nas matrículas do vestibular de inverno. Os dados disponíveis, incluindo os da própria Yduqs, contam uma história diferente.
Informações obtidas pelo BNLData junto à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que junho de 2026 — mês que concentrou 19 dias de Copa e 72 partidas — registrou o menor GGR (receita bruta de apostas) de todo o primeiro semestre: R$ 3,34 bilhões. O pico do período ocorreu em janeiro, com R$ 4,29 bilhões, antes de qualquer jogo do torneio ter sido realizado. O crescimento do GGR no semestre foi de 15,3% sobre igual intervalo de 2025, ritmo que não indica um salto capaz de desviar renda das famílias de forma concentrada nos meses de matrícula. A arrecadação federal com apostas e jogos de azar entre janeiro e julho de 2026 somou R$ 8,747 bilhões, com crescimento distribuído de maneira consistente ao longo do ano, sem aceleração específica em junho ou julho. O Índice Blask, da plataforma de inteligência de mercado para iGaming, registrou alta de 13% na demanda por apostas no Brasil nas primeiras semanas da Copa — percentual abaixo dos 34% da Alemanha e dos 30% da Argentina entre os 42 países monitorados.
Mais revelador do que os dados setoriais é o contraste com o documento oficial da própria companhia. No release de resultados do segundo trimestre de 2026, publicado em 13 de agosto — um dia antes da teleconferência —, a Yduqs atribuiu a queda na base de alunos do ensino a distância (EAD) a causas regulatórias: as restrições do novo marco do setor, que proíbe a captação de novos alunos em cursos de Engenharia, Saúde e Licenciaturas na modalidade EAD, além da migração de estudantes para o formato semipresencial. A base de EAD recuou 6,9% na comparação anual, de 1,092 milhão para 1,016 milhão de alunos, com a graduação EAD caindo 18,3%. Estimativas de bancos citadas pelo mercado apontam queda de 51% na captação de novos alunos em EAD no trimestre. Em nenhum trecho do documento oficial a empresa cita apostas esportivas como fator.
A Cogna, outra grande grupo de educação, registrou trajetória semelhante: recuo de 16,5% na captação no semestre, com o EAD respondendo por uma retração de 33,9%, enquanto o semipresencial cresceu 13,3%. O release da Cogna aponta as mesmas causas estruturais identificadas pela Yduqs em seu documento formal. O CEO da Cogna, Roberto Valério, adotou postura mais cautelosa ao comentar o período: reconheceu que a menor procura nos dias de jogo se deveu à atenção dos jovens voltada à Copa, "e não necessariamente porque destinaram renda para as apostas on-line", e admitiu que "ainda não é possível definir o quanto os estudos estão perdendo para as bets". A diferença entre transformar uma correlação em causalidade — como fez Marques — e reconhecer a ausência de evidência — como fez Valério — resume o problema central da declaração do CEO da Yduqs: a causa verificável da retração nas matrículas é regulatória, não relacionada às apostas.
| Período | GGR — Quota Fixa (R$ bilhões) | Arrecadação Federal (R$ bilhões) |
|---|---|---|
| Janeiro 2026 | 4,29 | não informado |
| Junho 2026 | 3,34 | não informado |
| Jan-Jul 2026 (acumulado) | não informado | 8,747 |
| 1º semestre 2025 vs 2026 | Crescimento de 15,3% | não informado |
A apuração inicial deste fato é de BNLData. A redação do BetNotícias produziu texto próprio, os dados estruturados e a análise de impacto acima. Acesse a publicação original para conferir o conteúdo na íntegra.



