Bets abandonam patrocínio master no profissional e avançam sobre o futebol amador
Levantamento do Estadão mapeou oito campeonatos amadeiros patrocinados por casas de apostas desde 2022, revelando uma reorientação estratégica do setor após a regulamentação do mercado.
Imagem ilustrativa gerada por IA
As casas de apostas esportivas estão redirecionando parte de seus investimentos publicitários do futebol profissional para competições amadoras, em uma estratégia voltada à aproximação com comunidades locais. O movimento foi revelado por um levantamento do Estadão que cobre oito anos de histórico de patrocínios no futebol brasileiro, identificando ao menos oito campeonatos amadores com presença de bets desde 2022 — a maioria deles no estado de São Paulo.
Da Série A ao gramado de bairro
A relação entre as bets e o futebol profissional teve início em 2019, quando oito empresas do setor estamparam suas marcas nas camisas de 13 clubes da Série A, segundo dados do Mapa do Patrocínio, do Ibope Repucom. Naquele ano, o Goiás se tornou o primeiro clube a receber uma casa de apostas como patrocinadora master — o espaço frontal mais valorizado do uniforme. A entrada das bets aqueceu o mercado e distorceu os valores praticados: Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo, relatou que os clubes cobravam das bets até quatro vezes mais do que pediam a anunciantes de outros setores. A expansão avançou pelos principais clubes do eixo Rio-São Paulo ao longo dos anos seguintes, com São Paulo (2021), Santos e Botafogo (2022), Vasco (2023), Flamengo e Corinthians (2024) e Palmeiras (2025) aderindo ao modelo.
O ciclo de crescimento acelerado começou a se retrair com a entrada em vigor da Lei nº 14.790/2023, que a partir de 2025 passou a organizar de forma mais rígida a regulação do setor de apostas no Brasil. A norma, regulamentada pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, estabeleceu exigências de licenciamento e condutas mais criteriosas para operadoras, o que tornou os grandes contratos de patrocínio no futebol profissional mais escassos. Entre 2025 e 2026, quatro clubes — Athletico Paranaense, Bahia, Grêmio e Internacional — perderam seus patrocinadores master ligados ao setor e seguem sem nenhuma marca naquele espaço. Ivan Martinho, professor de Marketing Esportivo na ESPM, definiu o momento como um platô: "O que segue hoje são contratos que foram assinados há um ou dois anos. Alguns clubes já estão sem bets porque não conseguiram esses contratos vultosos. É um momento, agora no pós-Copa do Mundo, em que o setor está bastante retraído, evitando chamar ainda mais atenção."
Copa Vaidebet: o modelo amador em expansão
A Copa Vaidebet de futebol amador exemplifica a nova frente de atuação das operadoras. A edição 2026 do torneio é disputada em quatro Clubes da Comunidade (CDCs) de São Paulo — Arena Xurupita, Jardim Rosana, Jardim Alvorada e Vila Ursulina —, espaços públicos com gestão compartilhada entre clubes amadores e a Prefeitura de São Paulo, utilizados também para a formação esportiva de crianças e adolescentes. A competição reúne 64 clubes em quatro fases regionais e um quadrangular final, com premiações de R$ 10 mil para os vencedores regionais e R$ 80 mil para o grande campeão. Os uniformes com a marca da bet são financiados pela patrocinadora. A presença de publicidade de apostas em locais frequentados por menores gerou questionamentos, mas a Prefeitura de São Paulo respondeu que a legislação vigente não proíbe a exibição publicitária em campeonatos esportivos e que a competição contou exclusivamente com atletas maiores de 18 anos. O torneio inclui ainda um prêmio de R$ 10 mil ao clube com a torcida mais engajada, medido por meio de links de afiliados distribuídos a cada equipe participante. Edições anteriores foram realizadas na Maré (RJ) e nas cidades de Campina Grande e Boqueirão, na Paraíba. O evento é tratado como projeto-piloto, com planos de expansão para o ABC Paulista e a criação de uma Supercopa. No futebol profissional, a Vaidebet mantém o patrocínio master do clube Remo, do Pará, que disputa a elite do futebol brasileiro em 2026.
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